Lágrimas no escuro


 Talvez em algum momento da minha vida eu tenha imaginado que Deus só leva os pais quando você está realmente preparado para vida. Que o pai vai primeiro e fica a mãe que é mais forte e saberá te confortar melhor com as mazelas que a vida traz. Bem, foi isso que aconteceu comigo; com a partida de meu pai fez-se um buraco em meu mundo que levou tempo para cicatrizar, ficou eu e minha mãe para cuidar um do outro, mesmo assim, meu vazio persistia. Passados alguns anos, minha mãe foi morar com minha irmã no RJ. Deus em sua sábia supremacia colocou um lar, uma esposa e um filho em minha vida, e as cores voltaram a existir, e eu achei que isso me bastava. 

Mas eis que nem tudo nasceu para ser eterno, e mais uma vez, talvez por culpa minha, ou não, hoje é irrelevante, quis a vida me levar sozinho por outras estradas e ver meu filho indo embora puxado por uma “mão” de alguém tão diferente da que amei. 

Novamente busco no colo materno o alento para colher às lágrimas de um norte perdido.

Sobrevivi às tempestades, mesmo dobrando e indo até o chão, não quebrei, resisti, fui forte. Mesmo assim, vi o meu presente (filho) ir para longe, morar em outra cidade, e o meu passado (mãe) ir perdendo a luta contra o tempo para manter suas memorias, mas mesmo frágil ainda distribuindo doçura e sabedoria, carinho e amor. 

Aceitar a vontade “DELE”, sempre. Não discordar, é difícil.

Difícil não ter aquela cabecinha branca para dar um cheiro no final da tarde, almoçar no domingo, lutar para arrancar um sorriso e ficar me sentindo acabado com o fracasso, de nem mesmo arrancar um “basta” no final do dia, isso era terrível. 

Estou sentindo falta de tudo isso, mesmo sabendo que tinha que ser assim, e que por mais que doa, parece ter sido planejado para ser da maneira como foi; os últimos três meses, foram de preocupação, dor, tristeza, UTI, 3º andar, ânimo, reação, recaída, dor, UTI, desespero, realidades nas palavras das médicas, tratamento paliativo, resistência, 4º andar, restabelecimento, felicidade, ansiedade, planejamento, recaída, amargura, cansaço, solidão, dor. Fim de ciclo.

Estar ao seu lado segurando sua “mão”, essa sim, que me amou a vida inteira até o fim, ver o último suspiro, tudo isso numa paz divina, ver partir como uma brisa suave, com todas as palavras já ditas, tudo isso foi um prêmio para mim e muito maior para você mãe.

Não creio que eu esteja preparado, nunca estamos, isso sim é verdade. Tenho que acreditar que, de uma forma ou de outra, novos ciclos recomeçam, espero por eles, vocês (pai e mãe) não estarão presentes fisicamente, mas tenho certeza que em luz divina a iluminar o que está por vir.

22/04/2018


Comentários

  1. Eita que relembrar esses momentos é como uma fisgada num membro amputado, ele não está mais lá mas ainda dói tanto... fomos agraciados por pais maravilhosos e tivemos a sorte de poder cuidar deles até o fim. Poder retribuir todo o cuidado que recebemos sempre, sentir às vezes a presença deles seja através de um sonho ou uma brisa, um cheiro. A vontade de encostar a cabeça no seu ombro, sentir suas mãos trêmulas em nossa cabeça.

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  2. Muito lindo, muita saudade mas com certeza eles continuam a olhar por nós.

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  3. Emocionante! Nessa sua narrativa, com esse dom maravilhoso de escrever com tantos detalhes, nos colocou na frente de nossos pais! Recordamos dias difíceis para eles, enquanto estiveram no hospital Santa Lúcia, nos últimos dias de vida! A saudade é imensa e o dia das mães está próximo.!

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  4. Era pra chorar? Rsrsrsrs... Vcs tiveram pais maravilhosos, que puderam tornar avós perfeitos!!! Meus maiores exemplos!🥰❤ a saudade é gigantesca mesmo meu padrinho!

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  5. Tio, assim não vale, meus olhos estão suados aqui, eu revivi vários momentos lendo seu texto. O legado deles foi incrível, nos resta saudades e a certeza que fomos muito amados! Te amo!

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