Anjos e demônios
Sabe aquele desenho animado que aparece o anjo de um lado e o capeta do outro tentando influenciar suas decisões; pois é, vira e mexe passamos por isso.
Recentemente, ao me deparar com uma situação um tanto desagradável, em que fui visitado pelo alheio que levou diversos objetos de meu pc, não o pc computador, mas o quartinho da escada, fiz a ocorrência na delegacia virtual, mais para alimentar as estatísticas do que para rever o perdido, relatei um notebook velho que de valor só tinha mesmo talvez algumas fotos antigas e também minha nova e querida barraca, de tão poucos acampamentos.
Com o passar do tempo, à medida que a necessidade se fazia, eu fui percebendo outras ausências, como minhas mochilas carregadas de equipamentos tbm de acampar, lanterna, martelo, cordas, essas coisas.
Então resolvi fazer um pente fino no quartinho; e para minha surpresa, dentro de uma caixa que jurava ser livros da minha sobrinha Nina, encontrei uma bela carta da minha mãe, que em abril do ano que vem irá fazer 20 anos. Era um desabafo sentimental da minha saída de casa para o meu novo apartamento e tbm para um novo relacionamento. Nela relatava um sofrimento e uma insegurança pois havia depositado em mim, alguém que ocupava o espaço deixado pelo nosso pai. É difícil, reler e não se emocionar com as palavras, principalmente passados 20 anos; fato é que ao final da carta ela agradece e nos abençoa, eu e o que viria a ser a mãe do meu filho.
Bem esse é um dos tesouros da caixa de livros que não era da Nina.
Outra descoberta foram albuns de fotografias da minha ex-esposa; ela bebê, ela criança, ela com a mãe, com o pai, com o avô, irmãos, com ex-namorados, desfilando aos 15 anos, em festas, gravida na formatura, casada, com o marido e o filho, enfim uma vida inteira em fotografias.
Ai é que entra o anjo e o capeta
Um diz, queima essa meleca, ela não merece, vai dizer que você estava escondendo isso dela, veja os 10 anos de descaso, brigas judiciais, etc, etc e tal.
O outro grita, você não é assim, não sabe ser mal; se ponha no lugar dela, devolve, isso não lhe pertence; e mais uma vez etc etc e tal…
O anjo ganhou e após arrumar tudo cuidadosamente embalado na mala do filho que retornava das férias, expliquei o porque de devolver, essa história da descoberta, que não era nenhum presente, afinal eram coisas dela, sei que o capetinha esperneou mas teve que aguentar a auréola dourada brilhar na cabeça do anjo.
Passados sete dias… o anjo esperando pelo menos uma palavra de obrigado, ou coisa parecida, se recolhe e entristece pelo silêncio, silêncio quebrado pelas gargalhadas do capeta que no outro ombro fica a repetir, não te disse, seu trouxa.
Com o tempo, e eu já tenho usado essa frase constantemente, percebemos que o que mais magoa, não são os atos dos outros, mas as expectativas que colocamos neles; não serei eu que devo me embrutecer pela ausência de agradecimentos, o passado é dela, então talvez não seja lá uma boa lembrança para ela, mas isso não é problema meu.
O verdadeiro álbum que criamos juntos, está crescendo e fazendo suas histórias, tornando-se um homem bom, provavelmente e com certeza, bem melhor do que o pai, e espero que um dia quando pegar a bifurcação da vida e fizer suas escolhas, tenha uma mãe que lhe escreva uma carta de gratidão desejando todas as bênçãos, para seu futuro. É isso. Fico aqui, apaziguando a briga dos dois, anjo e capeta, que é eterna e acredito não só minha mas de todos nos.
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