Sem respostas
E você passa uma vida inteira ao lado da pessoa e vê que não foram feitas todas as perguntas que deveriam ser feitas, daí vc chega na idade dele e especula os motivos para tudo.
As vezes me pego pensando eu cá com meus botões o que levou meu pai a ser um homem de fardas?
Meu avô Hugolino, era um homem de visão para o seu tempo, fundou um jornal local, um cartório, tinha terras podendo ser considerado um fazendeiro, enfim, uma sumidade em pessoa; colocou nomes fortes nos filhos, o professor Severino, o engenheiro Péricles, o tabelião Juarez, o fazendeiro e político Plínio, as professoras Hayde e Teresinha, e o caçula, que no "significado dos nomes", o mais próximo encontrado foi "Herculano: Significa relativo a Hércules e indica uma pessoa que encontra nos livros uma fonte para enriquecer sua visão do mundo. E ele associa a essa característica muita disciplina e senso prático, o que lhe abre as portas do sucesso." Pegando o sufixo, " Lino vem da palavra latim linum ou da palavra grega λινός (Linus) que significa linho e por vezes ganha o sentido abstrato de puro e límpido como o linho.."
logo essa visão do mundo límpida e pura como o linho daria o molde da personalidade desse pequeno Hércules.
Naquele tempo, pelo interior do Estado, não havia muita honra em ser um homem de farda, pois era logo relacionado as volantes que perseguiam cangaceiros, logo uma pequena decepção para meu avô a escolha do meu pai.
Vejamos porém o mundo que chegava pelas poderosa ondas da rádio centenária de Caraúbas; dos 8 aos 14 anos de idade, dominava notícias sobre a segunda guerra, "Natal o trampolim da vitória", os heróicos pracinhas brasileiros.
Em 1947, ele com 16 anos, foi criado o feriado de 7 de setembro, uma forma de acender o patriotismo brasileiro.
No pós guerra, dominavam notícias sobre a divisão do mundo, a acessão do comunismo na Rússia, a expansão para China, Cuba, e mundo a fora, tudo acontecendo longe da pequena e pacata Caraúbas.
Soma-se a esses fatos, já a migração dos irmãos para a capital, para estudar e trabalhar, também já corriam as notícias do sucesso empresarial do primo Nevaldo Rocha; definitivamente o "norte" daquele nordestino era a capital do Estado.
Fico cá pensando se ele tivesse tido sucesso como vendedor, como me disse que tentou em uma época, ou mesmo no cartório do pai, ou tentado ser um homem da terra, quanto teria se desviado do seu destino.
Na farda meu pai encontrou amigos, muitos amigos, encontrou minha mãe em uma pensão nas proximidades do alto da Ribeira, conduzida pela linha dura da minha vó, foi lá no sobe e desce da "ladeira do sargento" que iniciou o amor que levaria a uma grande família.
Mas outros ventos sopraram e a busca do "novo norte" levaram para Minas, que serviu de trampolim para a capital federal.
Passados outros tantos ventos, retornou para Natal para encerrar a carreira e sentir o gosto do que poderia ter sido sua vida ali, virou delegado no Alecrim e vivenciei seus últimos dias de taberna que foram no limite.
Ao ir para reserva, pendurou a velha farda e seu quepe, e retornou para Brasília, foi viver seu grande sonho da humilde casa no campo em cima do morro. Ali ele foi mais que professor, foi mestre, foi mais que engenheiro, e levantou as colunas de um novo alicerce, foi mais que fazendeiro e político e acolheu uma comunidade, só não chegou a ser um tabelião, mas virou uma central telefônica no Vale das Andorinhas.
Gosto de passar e repassar essa história na minha mente.
O que deu certo, deu certo; o que não deu, mesmo assim após fechado o livro, se vê que deu certo. Se tudo tivesse que ser refeito, seria do mesmo jeito, um acerto indiscutível.
Meu querido, meu velho, meu enorme amigo, a farda, o quepe, o verde escuro, a cara vermelha do sol, os olhos azuis, as vezes que nem seus passos, atravessados.
Que bom que fez as escolhas certas, que bom estar aqui vivo para reconhece-las. Não há mais perguntas a serem feitas, nem tampouco, respostas a serem ditas.
Hoje seriam 90 anos, mas Deus nos deu 68 anos amando pelos olhos e 22 pelo pelo coração, e mas uns tantos que serão lembrados pelos que compartilharam esse vagão chamado vida.
Beijão pai. Te amo.


Eu não tinha visto este texto ainda. Eu nunca vi uma vida com tantos acertos com a do nosso Pai. Um legado que jamais será esquecido, muito verdadeiro este relato.
ResponderExcluirMeu querido pai, sempre presente
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