Pedras soltas


 Há falhas nas pedras portuguesas das calçadas, o espelho d'água, na entrada do estacionamento, está seco e com folhas amareladas, presas esperando um vento mais forte para liberta-las. O hall da entrada, que era uma grande porta giratória de vidro, deu espaço a folhas de madeirite descoloridas, transpassadas por uma corrente gasta. Dos poucos estabelecimentos abertos, vê-se ao final da galeria, um escritório de, não sei o quê; na esquina, uma representação de algum partido político da época da última campanha, um escritório do Buser, sem movimento, a não ser pelos ônibus que agora embarcam e desembarcam no estacionamento da frente. As famosas lojas de turismo, fechadas, o restaurante, fechado, a boate da esquina, juntamente com um salão de beleza chique que havia ali, tudo fechado. Lonas de quiosques das lanchonetes, rasgados, empoeirados.

Mas ainda se vê alguns funcionários, dois ou três vigias, um jardineiro ou pelo menos aparenta ser um, provavelmente da empresa que ganhou a licitação. 

O que me aguça a curiosidade, é uma senhora, que caminha nas manhãs, com seus três cachorros de raça, tipo aqueles peludos de nariz fino, parecendo um espanador. Ela conversa com os vigias, as vezes num tom camarada, as vezes num tom a mais. Ela aparenta ter vivido uma personagem tipo, "society" de outra época, mas, as meias arriadas e o vestido/camisola, além dos cabelos embranquecidos e esvoaçados, lembram que o tempo de "JK" passou. Passo diariamente e com os meus bons dias, recebo as vezes um retorno, observo nas feições, no olhar, alguém que espera algo; algo que retorne, ou que aconteça novamente; da quase para ver uma lembrança na sombra, um suspiro rumo a rodoviária. 

Os cachorros latem, eu passo rumo ao trabalho, o Hotel Nacional me vê passar, estou quase sempre no horário, em sete horas farei o caminho inverso. A história a minha frente, indo e voltando no balanço dos ponteiros.  


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