A consulta
716 Sul, esquina da W3, quinta feira, 8h15 do dia 2/3/2023, sentado num banco, aguardando a recepcionista desenrolar a aprovação do meu atendimento emergencial. Meus olhos vão e voltam acompanhando os transeuntes do longo corredor do Hospital Santa Lúcia, passa uma enfermeira empurrando uma cadeira de rodas, nela uma grávida, se contorcendo pela proximidade do momento, minutos depois, o que defini como sendo o pai, passa correndo, leva consigo uma mala, um sorriso bobo, uma tensão na testa contraída e passos largos para receber o "Oscar" de melhor ator coadjuvante do dia. Ao final do corredor, uma divisão, uma rampa, uma escada, que sei bem, virando a esquerda levará a recepção do anexo do hospital. Descendo a escada acompanho uma jovem médica, em seu vestuário típico de branco, estetoscópio pendurado ao longo do pescoço, pelo andar calmo e vagaroso, imagino final de plantão. Refaço o percurso visualmente diversas vezes, indo e voltando, esperando o meu nome ser chamado. Paralelo a essa distração de continuo observador, não poderia deixar de lembrar das tantas outras vezes que fui e voltei, pra lá e pra cá, sendo o personagem da vez, nos derradeiros dias dos meus pais.
Pelo whatsapp sou pego de surpresa na postagem, em um grupo de primas da família paterna, em que minha irmã participa, lá se comentava de uma foto antiga, nela dois tios que jamais ouvi falar deles, então, descobro a chegada e a perda de dois tios, tento entender o por quê do silêncio desses fatos? Viajei tantos km com meu pai, tomamos tantas cervejas juntos, foram longas caminhadas e dias na chácara, num período desempregado, idas e vindas em velórios, momentos de silêncio, nenhum comentário sobre esses fatos.
Acredito que numa família de nomes fortes, gregorianos, segundo meu irmão. O nome Hugolino Jr, ser colocado no sétimo filho, talvez tentando fechar a safra, mas ainda viria, tio Djalma, que aos 3 anos seria levado no colo pelo avô materno, na longa viagem de volta.
Imagino que parte dessa dor familiar, deva ter respingado na criança do meu pai, e talvez a mão, não tão acostumada a carinhos da minha vó e o olhar austero do meu avô, tenha calado o adulto soldado de tantas batalhas para esse fato. São só especulações, um passa tempo, de quem está com a garganta inflamada e tenta disfarçar a solidão do momento no hospital.
30 minutos passados, sou informado do não atendimento emergencial pelo plano.
Faz parte, valeu uma história.


Quantas idas e vindas da vida!
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