Bifurcação
Feira de Santana - Bahia, próximo a BA 502 (03/2023)
- amor... paga um Campari para mim! Ah vai paga!!!
- Garçom, um Campari, um conhaque, São João da Barra e uma ficha da vitrola, por favor. Penso ser esta, a última vitrola de zona no Brasil.
A frase, o batom rubro que se fundia com a bebida vermelha, o disco da Roberta Miranda girando, a fumaça do cigarro, tudo girou e num piscar de olhos, me vi em 1981, a memória de 42 anos atrás, com 50 kg a menos. Eu estava mal no colégio Elefante Branco, não entrava nada na cabeça, já havia decepcionado meus pais pela desistência do colégio agrícola, morava em Brasília, na 209 sul, meu pai falava sempre, que aquele apto funcional, era passageiro, que ali não era nosso lugar, já havia um plano de se mudar para Natal, porém minha estrada seria outra, a bifurcação apontava para o norte. Numa manhã chuvosa, de outubro, arrumei meia muda de roupas na mochila, escrevi um bilhete, dizendo vou ali ver o mundo, não se preocupem, mandarei notícias.
Meu destino era Marabá e depois, Serra Pelada, entraria naquele rio de gente atrás da pepita que mudaria minha vida.
Mas o metal dourado surgiu de outra maneira, na terceira carona, "Seu Chico", um caminhoneiro rodado de seus 65 anos, boa parte deles vividos nas estradas, me contava suas histórias de BR, das tantas viagens e encantos dessa vida, ele estava doente e pegou um frete para Imperatriz, onde depois, retornaria para sua casa no Estreito do Maranhão. Me falou que dinheiro de garimpo é dinheiro que não se vê, o que ganha, fica por lá, e com sorte sai-se vivo, mas se envelhece muito em poucos meses. Ele havia perdido o filho para a malária há um ano atrás.
Então, na segunda bifurcação da vida, optei por retornar para o Estreito em vez de seguir para Marabá. Fui contratado na BR 153 como ajudante de caminhoneiro, sem carteira assinada, sem férias, nem décimo terceiro.
A casa no Estreito, era estreita, mas o quintal enorme, cheio de pés de frutas, uma pequena horta, um jardim na frente com margaridas, espada de são Jorge e um pé de "a dama da noite", para perfumar o fim da tarde, qdo as cadeiras de balanço iam para a calçada ver a noite chegar.
Maria Rita, era uma menina calada, assustada talvez. Ela era a neta do Seu Chico, filha do garimpeiro que não voltou, a mãe tinha descido a BR 153 qdo ela era ainda uma criança, e nunca mais se teve notícias. Juntamente com a avó, dona Inês, cuidava dos dois bisavós. Qdo cruzamos o olhar pela primeira vez, os segundos se alongaram, o que foi uma eternidade para ela, me contaria anos depois.
Não demorei a me acostumar com o vai e vem da BR, as vezes, levavam semanas fora de casa, a rádio sempre ligada na Nacional AM, trazia os recados e as canções que alimentavam a saudade.
Quando a noite chegava, parava para o banho e assistir "Carga Pesada" na Globo, as meninas suspiravam e muitas vezes pediam que a levassem. Mas o coração desse lobo da estrada já levava alguém.
Não demorou muito o namoro, e o primeiro filho chegar. E no cartório registrei como, José Pedro, em homenagem ao pai garimpeiro. Ritinha abriu um sorriso com sua chegada, parece que Deus finalmente adoçou sua vida, não que eu não tenha sido bom para ela, mas vivia no mundo, e a janela virava o eterno ponto de espera para ela.
Nunca conversamos sobre sua mãe, era bem provável que tenha herdado dela aqueles olhos azuis, ja a cor de jambo, meio indiana, veio do pai. O conjunto era belo, um pouco baixinha, um pouco magrinha, assim, meio frágil, meio criança, e eu, me apaixonei por ela.
O segundo filho, não tardou a chegar, Luis Henrique, nome que escolhi desde sempre. Parecia ter vindo ao mundo assoviando, seu destino era a música, cantava e tocava bem, era uma festa ambulante. O mais velho a princípio queria a estrada, que nem o bisavô e o pai, mas foi pela bola que se apaixonou de verdade. Tinha uma liderança no campo e era admirado por todos, não demorou muito e começou a peregrinação, passeou pelos times locais, e partiu para o Goiás, depois uns times do interior de São Paulo e finalmente o Guarani, mas no futebol, tempo é tudo, e aos 30 anos veio a contusão no joelho, e a cirurgia, e nem se recuperou da primeira, veio a segunda operação. Teve que se aposentar da bola, e como havia driblado os livros a vida inteira, foi fazer a praça em Palmas.
Luisinho, tinha um pouco mais de determinação, estudou o suficiente para passar num concurso do Banco do Brasil, era controlado nas finanças, até aparecer uma encantadora mulata, fonte de todas as canções, Soninha; vivia suspirando por ela, e num desses suspiros, nasceu minha linda neta, Lara. Eles foram morar em Anápolis, e por ser meio que encruzilhada de rotas, sempre ia visitá-los. Lara falava: -vovô qdo eu crescer vou ter uma fazenda e vc vai morar comigo, meu bicho de estimação será uma vaca e nós iremos passear na cidade com ela no domingo. Ah! como é a vida! pensei, pulou uma geração para escutar as mesmas palavras que eu dizia qdo criança.
Sempre passava por Brasília e visitava meus pais, foi bastante triste não estar com eles em seus momentos finais, como também foi imperdoável ver as crianças crescerem a distância, a estrada é cruel nesse ponto, e num gaguejar do tempo, tudo passou tão rápido.
Voltando a 2023, acordo na boleia, um tanto zonzo, um tanto suado; já é tarde, 8hs da manhã, a moça do Campari já se foi, só ficou o cheiro mofado do perfume barato pela cabine. Sigo para tomar um banho no Posto Trevo 7, depois, um café e um cigarro, não devia estar fumando, nem ter bebido tanto, a culpa foi do Roberto Carlos que deixou a Roberta Miranda cantar "a distância", a culpa foi da COVID que levou minha Ritinha e por pouco não me levou tbm. Não devia ter vindo.
Olho para a estrada, respiro profundamente, estou voltando, tenho que chegar para a festa de comemoração da minha neta, ela passou na federal para Agronomia, meu Deus, que maravilha! Enfim uma boa notícia, obrigado.
110kg, o joelho geme para subir o degrau da boleia, sinto um cansaço excessivo, a vista fica meio turva, o braço cambaleante arreia e abaixo a cabeça ao volante, fecho os olhos, puxo ar, o peito dói...tudo escurece...preciso ir... preciso respirar...
...
...
...
Uns tapinhas nas costas me despertam,
- Henrique, acorda, já são 13h44; anda, o horário de almoço já acabou, termina logo de enviar aqueles e-mails dos deputados, preciso que vc me ajude a criar os links para reunião do conselho fiscal.
- ãhhh... Ah tá, já vou, balbucio sonolento ainda
- o que é que tinha nessa feijoada? vc dormiu de roncar... onde vc estava? Pergunta minha amiga contadora.
- longe, muito longe, bem longe mesmo, respondo.
Já em casa, ao colocar a roupa suja para lavar, retiro do bolso da calça, um recorte descolorido pelo tempo de uma cerca com uma vaquinha a pastar, tranquilamente.
“Cada escolha, uma renúncia, isso é a vida”.
E se não tivesse sido essa bifurcação

Fantástico! Viajei nessa estrada imaginária que você criou no seu sonho. Um texto muito bem escrito e que prende a gente na leitura. Parabéns!
ResponderExcluirEsse texto foi uma verdadeira viagem para mim. O tempo, as escolhas e a estrada. Ah, a estrada. Na estrada, assim como no texto, assim como na vida, uma vírgula realmente muda tudo.
ResponderExcluirÉ Emanuel, muitas curvas, e longas estradas
ExcluirAmei, são escolhas mesmo, no inicio do texto cheguei a sentir dó da mãe lendo aquele bilhete .. E falando de escolhas, eis que estou vivenciando, novamente, o recomeçar, e com tanta coisa dando certo acredito que estou na escolha certa.
ResponderExcluirLindo texto !!! Amei fazer parte dele !!! ❤️
ResponderExcluirAinda bem que me vc me acordou kkk
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