Terceira via, ouro de tolo

obs. Essa é a história de uma outra escolha do texto "Bifurcação"

Na despedida emocionada, “Seu Chico” recusou o pouco dinheiro que lhe ofereci pela carona, dizendo: - filho que Deus lhe abençoe e te faça voltar para casa, enquanto ainda é tempo. Na virada da curva, misturada a poeira vermelha, folhas de papel voaram pela janela, corri na tentativa de junta-las, mas o velho caminhão já ia longe, acho que eram histórias perdidas que ficaram pela estrada.
Do trevo onde fiquei até Serra Pelada era um longo caminho, andei muito até chegar ao que antes era um córrego estreito ao pé do morro da fazenda Três Barras, a 150 quilômetros de Marabá, sul do Pará, era uma aventura, com sorte fui pegando carona com alguns caminhões que ocasionalmente passavam por ali e caminhando sozinho, num calor sem igual.
Cheguei ao km 30 da rodovia PA-175 no final do segundo dia a tarde, e como imaginei, não havia pousada, nem nada parecido, só barracos de madeira e uma luz oscilante de postes improvisados. Entrei em um multi comercio, armazém, bar e casa noturna, pedi uma Coca-Cola e um pacote de bolachas, me encostei no banco da varanda e tirei vários cochilos, agarrado a tudo que tinha no momento, minha mochila, um par de havaianas e o cansaço de travesseiro.
Ao amanhecer, sem dinheiro e com a fome na cola, sem outras opções, entrei na fila para ser contratado como "formiga", no barranco do "Portuga", um dos tantos que foram fatiados na serra. O trabalho era simples, escavar o solo, recolher as rochas, encher um saco, prender da cabeça seus 30 kg+-, subir e descer numa escada entulhada de gente que carinhosamente era chamada de "adeus mamãe”, despejar a uns 30 metros, então o solo era quebrado, lavado e passado no mercúrio, ao aquecer a mistura dos dois metais o mercúrio evapora primeiro, ficando somente o ouro tão desejado, eram aproximadamente 20 a 30 viagens por dia e magricela que era, sabia que não aguentaria por muito tempo.
Foto: Sebastião Salgado
Contei minha história ao grupo e como fui parar ali, fiz algumas amizades, eles entenderam que sai fugido de casa e logo ganhei o apelido de Playboy Fugitivo.
A repercussão da notícia e o aumento do fluxo de pessoas para região, fez com que o Estado se fizesse presente, e um coronel já conhecido do Araguaia foi designado para controlar e organizar o local. Proibiram mulheres e bebidas, e ao som do hino nacional, hasteava-se a bandeira do Brasil, foi criado um posto de saúde, correios e o principal, a Caixa Econômica Federal, que comprava todo ouro produzido, ou tentava comprar, pois, já havia instalado o mercado negro que trabalhava em paralelo.
A “Vila dos Trinta”, nome dado por ficar a 30 km do garimpo, era onde ficavam as boates, os bares e mulheres, era onde o ouro era bebido e comido na “Las Vegas” da selva, e onde há bebida, mulher e dinheiro, há bala; então surgiu o slogan "de dia era 30 de noite 38". 
E o destino segue com suas surpresas, eu que quase sempre estava sem forças para diversão, resolvi comemorar o primeiro pagamento tomando uma cerveja com os amigos, só que lá valia aproximadamente umas 4 vezes mais que o preço de qualquer outra cidade da região norte. E ainda tinha bebido poucas quando percebi que um homem se aproximava com uma faca na direção de um magrelo esquisito de óculos de lentes grossas, não pensei duas vezes e acertei a cabeça do agressor com minha cadeira, não sei se morreu ou não, sei que sai correndo mata adentro.
O calor, a falta de higiene e as nuvens de mosquitos provocada pelo desmatamento, me apresentaram a malária, lembrei do filho do caminhoneiro e de suas palavras, delirava com pedras douradas que não passavam de bolas de Natal, com fogo, rios de fogo. Pesadelos.
Pierre procurou em todos os lugares quem havia lhe salvado a vida, e ao me encontrar no posto de saúde, cuidou para que não me faltasse nada.
Ele era tipo um capitalista na região, tinha alguns barrancos que lá eram chamados de "Dama", assim que melhorei um pouco, ele me ofereceu para trabalhar de meia-praça, uma espécie de administrador de barranco, e passei a ser comissionado ao invés de assalariado, 5% do encontrado. Com o tempo fomos nos tornando mais amigos, ele me falou que era um fugitivo da França por ter se envolvido com pessoas pouco honestas, na verdade ele era um falsário, me ensinou a falar francês, percebi que nem todo ouro das Damas iam para a CEF, percebi que ele fazia a intermediação de outros proprietários, que havia um cartel e ele tinha uma cadeira cativa cobiçada. Aprendi a contabilidade informal, os contatos e as rotas da saída do ouro. Então, certa vez, fui acompanhando uma remessa de ouro, um pouco maior com seu primo Luigi. Conheci a "família" que negociava a um preço bem maior que do mercado. 
Em dezembro 1987, garimpeiros fecham a BR 155 reivindicando melhores condições de vida e trabalho, a PM do Pará com apoio do EB fez chover 15 minuto de bala, assassinando 79 garimpeiros, o fato ficou conhecido como o Massacre de São Bonifácio. E chamou ainda mais a atenção do mundo.
O termo “bamburrar”, referia-se ao dono do barranco que achasse ouro e ficava rico. Muitos bamburraram, mas o dinheiro fácil vai embora com a mesma rapidez que se ganha.
A minha forma de bamburrar era nas comissões, e nas contravenções, ser facilitador do trafico do ouro e saber lavar o dinheiro, rendia muito mais que muitas pepitas. Quando Luigi foi preso na França por uma operação contra o trafego, fiquei no lugar dele de forma direta. 
As portas se abriram não só para o mercado negro do ouro, mas também para o contrabando de madeira. O ambiente era sempre tenso, mas o grupo viu em mim uma ponte para defender outros interesses na assembleia dos deputados, assim comecei minha carreira rumo a assembleia legislativa. De representante de sindicato, a deputado estadual, foram muitos apertos de mão, abraços e sorrisos fartos, além de dinheiro, muito dinheiro.
Na década de 90 um decreto do então presidente Collor de Melo prorrogou a mineração, a comemoração foi grande, mas o que é bom dura pouco, sob a pressão das multinacionais o garimpo foi fechado, formando um lago contaminado de mercúrio, com profundidade de 200 metros.
Ainda houve muitos vai e vens, nos anos posteriores, mas a verdade é que o ouro ficava cada vez mais difícil de ser retirado. Então comecei a trabalhar com sociedade desses garimpeiros, investindo em maquinário e outros pontos de mineração Amazonas adentro. Comprei fazendas com nomes de laranjas, fazia sociedade com pessoas que não se deram bem no garimpo e tentava sempre manter meu nome longe dos lucros que não demoraram a chegar. 
Em pouco tempo os interesses por clubes de casino, armas e outras atividades ilícitas, fizeram meu nome ser cotado como um representante de peso no Congresso Nacional, e com dinheiro e currais eleitorais, foi fácil desembarcar em Brasília.
A volta a capital seria um grande desafio, desde minha saída em 85 nunca mais voltei, pouco falei com meus pais e muito menos com meus irmãos. Meu pai vinha acompanhando com um certo descontentamento minha ascensão, muitas notícias circulavam negativamente sobre a bancada do meu partido, e não demorou a aparecer investigações da policia federal e demais instituições “fiscalizadoras”, ou seja, instituições que queriam o poder também. A politica é feita de podres de ambos os lados, infelizmente deixei-me levar por essas correntes e cheguei ao ponto de não conseguir ver uma saída desse ciclo vicioso. Não cheguei a formar família, de amor, sai das prostitutas para as acompanhantes, o amor em cifrões.
Para meus irmãos eu era um estranho, faltei nos momentos mais importantes da vida deles, faltei nas despedidas dos meus pais; se quisesse ser tão sacana, não teria conseguido me superar do que fui.
Quando a casa caiu, corri para o “canal dos contatos da França” e alguns “amigos”, se assim posso considerar, me arrumaram identidade falsa, nome falso, barba, óculos, e ao invés de sair do Brasil, fui para Feira de Santana na Bahia onde tinha um sócio dos investimentos do tempo do ouro que me ofereceu uma casa noturna para administrar. Tudo que precisava era exatamente isso, uma luz vermelha, um local de pouco movimento, frequentado geralmente por caminheiros e pessoas errantes que nem eu do entorno da cidade. Assim passava os dias, a noite na penumbra da boate, de dia dormindo num sítio emprestado, sem novas amizades, aguardando que os holofotes fossem direcionados para outra pessoa, afinal eu só era uma das pontas do iceberg.  
O som da sirene da ambulância naquela manhã, interrompeu meu início de sono, no posto Trevo, alguém deitado numa maca recebia massagem cardíaca. Dolores uma das meninas noturnas que frequentava a boate me disse que era o homem que comprava as fichas e botava para tocar a mesma música da Roberta Miranda dez vezes seguidas. Ela havia o ajudado a subir na cabine e ter sido chamada de Ritinha a noite inteira.
O dia estava movimentado e as sirenes agora eram das viaturas da PF que bloqueavam a boate fazendo jorrar polícias armados. A casa caiu novamente.
Saindo do posto, somente de bermuda e havaianas, a camiseta amassada, caminhei sem pressa, rumo a picada que dava para uma mata ao fundo do posto. Tinha que sair dali rapidamente, pois se a federal havia me localizado, com certeza o sistema de queima de arquivo estava por perto. E foram poucos passos após o barranco, que uma luz de infravermelho localizou minha cabeça, a dona da foice se disfarça de diversas maneiras, dessa vez foi na mão de um “sniper”. A bala atravessou a cabeça, estraçalhando a lente esquerda do óculos, a terra preta foi meu último beijo, o sangue rubro, como um rio de mercúrio, escorreu pelo braço atrás de ouro, ouro de tolo; ao chegar na mão se misturou a única coisa que me ligava ao passado, um papel com uns números rabiscados e  no verso um impresso que começava com o título..., “Senhor Deputado”.


Comentários

  1. Perfeito, meu padrinho!!!! Adorei!!!! Faça mais trilogias!!!! Rsrsrsrs...
    Pode colocar o fundo musical do Faroeste Caboclo! rsrsrsrs

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  2. Showwww... muito bom mesmo

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  3. Hugolino
    Sensacional, você precisa continuar, um escritor nunca deve parar!

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  4. De comportamento equilibrado no mundo real, a mente criativa do mano Henrique é brilhante, intensa e instigante. Seus personagens trocam de rouoas, cenários e experiências mirabolant3a que prenden o leitor. FANTÁSTICO.

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  5. Muito bom. De comportamento equilibrado no mundo real, a mente criativa do mano Henrique é brilhante, intensa e instigante. Seus personagens trocam de roupas, cenários e experiências mirabolantes que prenden o leitor. FANTÁSTICO.

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  6. Sensacional!! Só lhe digo uma coisa, continue, os personagens criados a narrativa, tudo perfeito..👏👏👏👏

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  7. Caramba, você passa uma veracidade com esse narrador em primeira pessoa que até arrepia! A questão da corrupção é mais atual do que nunca! Incrível, Henrique! Muito bom!

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