Um sonho que veio do espaço

 

Aqui no espaço, tudo é escuro, o tempo todo, silencioso, solitário e vazio; ainda faltavam alguns anos-luz para passar perto da estrela que mais brilhava no caminho até o planeta "Xtrador", onde meus pais iriam buscar um material valioso que gerava energia em nosso planeta. No caminho há uma estrela muito brilhosa, então meu pai ajustava nossa tela plasmática e captava sinais analógicos bastantes fracos de algum planeta próximo, na verdade são sombras em movimento e sons não decifraveis que chegam descompassadamente. Minha diversão, então, era tentar calibrar essas ondas em nosso decodificador e tentar limpar um pouco o conteúdo que sobrava. Meu pai dizia que talvez fosse ondas de civilizações de um passado distante, que as ondas se propagam infinitamente pelo espaço e que eu não me animasse muito com a ideia de vida perto dessa gigantesca e quente estrela.

Foram muitas idas e vindas da minha casa em Dranger até a mina em Xtrador, e em uma dessas travessias, a nave teve um difusor de energia tetrixo negativado, ou seja, da velocidade da luz passou a se registrar em míseros um milhão por km/h. Sei que graças a esse terrível problema para meu pai, consegui modelar as ondas de uma maneira que ficassem mais nítidas. Então, começaram a aparecer todo tipo de movimento de seres que pareciam conosco, esceto pelo pescoço mais curto e braços e pernas menores, depois estudando melhor vim a saber que uma tal gravidade fazia isso com eles. 

Para meu pai e o restante da  tripulação foi uma grande surpresa saber que essas ondas poderiam sim serem do presente, e o melhor, poderiam ser a solução para um pouso de emergência para arrumar a nave.

Numa velocidade menor, praticamente o tempo não passava, e demoramos muito até localizar aquele planetinha azul iluminado pela grande estrela que saia labaredas de fogo.

Pela localização dos terráqueos, assim eram chamados, o pouso foi num país chamado Brasil, no Estado de Goiás, no entorno da capital do país, na mata a beira de um córrego miúdo onde havia uma fábrica de doce de leite.

Meus pais saíam a noite para explorar as redondezas, eu ficava vendo as transmissões agora já bastante melhoradas na minha tela plasmática. E o que mais me divertia eram as partidas de futebol, as camisas das equipes sempre coloridas, os estádios repletos, havia paixão, termo que aprendi estudando os comportamentos humanos, e enquanto alguns vibravam outros choravam, era um espetáculo.

Um belo dia, me arrisquei a sair no sol, e vi que não era nada do que meus pais diziam, que eu iria descascar e ressecar.  

Então atravessei a pequena mata, passei pelos arames com muito cuidado, subi uma ladeira e fui de encontro a uma casa pequena ao alto, com uma parabólica ao fundo. Não demorou os cachorros começarem a latir, crianças que estavam rodando em um brinquedo de ferro vieram gritando: - para Spuque, quieta Tina, eram os dois cães de guarda da família, mas não adiantou muito.


Eles se aproximaram de mim e sequer estranharam minha pele meio azulada, e apesar de sermos da mesma altura, provavelmente da mesma idade, não falaram nada do meu pescoço e braços alongados, nem eu falei nada do deles serem tão pequenos.

Eles acharam que eu era uma criança Argentina, do outro lado da cerca, por isso não entendia bem o que eles falavam. Mas graças aos gestos e sorrisos me apresentaram a bola, e saímos em disparada  para o campinho de terra ali perto. Jogamos a tarde inteira, gritamos e rimos muito, mas a poeira levantada não demorou muito a fechar minhas vias. Então nos despedimos e marcamos de jogar no dia seguinte.

Ao voltar, a nave já estava arrumada e pronta para partir, apesar da felicidade dos meus pais, não escapei de levar uma bronca espacial, tive que ficar de castigo por uns 30 anos-luz, bem não dá para converter em tempo, mas para mim, foi uma eternidade. Mas valeu a pena, nunca nesses 40 anos terráqueos +- eu tive um momento tão divino. Eu fico a  imaginar qual teria sido o destinos deles, certamente boas pessoas se tornaram.

Esses mesmos meninos, há 40 anos atrás, voltaram eufóricos do campinho, todos falando ao mesmo tempo para o tio deles sobre a partida com o menino azul, e não demorou muito para virar uma história que o tio teria que contar por noites e noites até o último dormir, sobre um alienígena que veio do espaço, jogar bola aqui na terra.

Eles nem percebem, mas as vezes, se pegam olhando para o céu, lembrando do amigo azulado e das histórias da chácara.

Comentários

  1. Fiquei imaginando as crianças jogando futebol: Rodrigo, Rafael, Lucas,Felipe, Leandro... e a noite deitados na grama esperando a passagem do cometa Halen...

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    1. Viajei nesta lembrança, Henrique sempre teve muita presença espírito. Deveria publicar seus textos . Vou mandar pros meninos. Bj Miriam

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  2. Fui do seriado perdidos no espaço, até a lembrança de um monte de criança deitada rindo a valer das histórias do tio Bigas enquanto em coro todos os pais ficavam mandando eles dormir. Boas lembranças. Eles vão gostar de saber do final da história.

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  3. Maravilhoso texto. Voltei algumas décadas praquela parte da chácara que ficava do lado de baixo da cerca. Com certeza essa história aconteceu lá perto da rua de terra que levava pra casa do tio Lala. E nesse dia não teve uma criança com medo do Baiano que matava as pessoas por lá!

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  4. Ahhhhhh que delícia! Se fechar os olhos consigo ouvir nossas gargalhadas esperando o final das suas histórias! Rsrsrsrs... e a vovó brigando pq vc não deixava a gente dormir! Rsrsrsrsrsrs... saudade..Obrigadaz meu padrinho! ❤❤

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  5. Hugolinoneto@gmail.com
    Que história interessante, não sabia dessa "pelada" celestial! Muito legal!

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  6. Ahhh eu acho que descobri de onde vem todo meu amor pelo céu azul hahhaaha! Que show de história! Quero maais!! <3

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