Terminal
Parte 1 – mudança, sonho e desencontros
Helena demorou um pouco para entender a sucessão dos últimos fatos daquele longo mês de agosto. Um ano atrás, ela havia partido da cidade de Corrente, interior do Piauí, rumo a Brasília, onde morava sua tia Teresinha, que era casada com Raimundo, e sua prima a pequena Silmara. Partira para realizar um sonho, se tornar enfermeira, fazer parte, de certa forma da medicina, ajudar pessoas, cuidar, vacinar, tratar, fazer a diferença para uma comunidade.
A viagem foi demorada, cansativa e longa; naquele tempo, a rodoviária de Brasília, ficava no final do eixo monumental, e tinha que mergulhar o ônibus para desembarcar no subsolo, só então por meio de uma escada rolante, submergia-se para o céu mais azul que seus olhos já haviam contemplado.
A recepção foi calorosa, sua chegada significava, uma companhia para a prima mais nova e um auxílio para a manutenção e serviços da casa. Sua tia trabalhava de babá, Raimundo na construção civil, e muitas vezes a criança tinha que ser deixada com vizinhos. Logo se desenhou uma certa dificuldade para conciliar a rotina com os estudos. E ela percebeu que teria que trabalhar e dar sua colaboração de outra maneira para que pudesse iniciar os estudos a noite.
Nos classificados do Correio Brasiliense havia um anúncio de vagas para cobrador de ônibus, para trabalhar em turnos diurnos e noturnos, não era bem o que ela queria, mas servia de começo...
A paixão por Dionísio começou no dia da mobilização da categoria por greve geral, reinvindicações de aumento de salário, redução de carga horária, eram os pontos principais da luta. Ele no rebanho de repetições de gritos de ordem, era o que berrava mais alto, incendiava os demais companheiros, e isso a encantou. Em um beijo ardente de vamos à luta companheiro, começaram seu amor e também seus desencontros. Ele motorista do 152, ia e voltava do terminal a rodoviária, ela de cobradora do 168 terminal/ UnB, sempre cheio de universitários cabeludos com suas pesadas mochilas e fones de ouvido alto.
Nesse vai e vem urbano por vezes se encontravam no terminal e trocavam beijos ocultos e carícias ousadas. A pedido dele levavam um romance as escondidas, com a desculpa do lado profissional, evitar fofocas, essas coisas.
Numa manhã de segunda-feira, eles sentados na calçada, ela ansiosa e empolgada, revela que está grávida, ele se contrai e se afasta, a face sempre alegre e sorridente, se enruga e as palavras que ela esperava ouvir saem ásperas e meio entrecortadas: - Não, isso não é bom, agora não. Eu sou casado tenho três filhos e não posso assumir mais um. Você tem que tirar esse bebê, me desculpe.
Não se sabe de onde, apareceram nuvens escuras, um frio que não existia a fez tremer, as lágrimas escorreram internamente e ela conseguiu segurar as três viagens que faltavam. Foi o último dia dela atrás das roletas.
Ao ficar sabendo, a tia deu o apoio que ela precisava, mesmo falando um bocado, ela mostrou que nos caminhos de Jesus não havia a menor possibilidade de um aborto. E Helena abraçou o evangelho, e acreditou. Em tudo via motivos para recomeçar, senão por ela que estava despedaçada no coração, mas pela filha que era fonte de todo amor.
O período da gravidez foi de reclusão e meditação, a barriga pouco cresceu, e no dia 17 de dezembro, nascia a pequenina Gabriela, Helena orou aos céus agradecendo a dádiva do Senhor e chorou, o choro de nove meses engolidos.
Por vezes, Helena substituía a tia como babá, mas sentia uma certa angústia de cuidar de outras crianças e ficar em falta com sua filha, essa mesma angústia ela sentiu quando o pai veio a falecer já idoso e ela não estava por perto.
Ao se formar, optou por se especializar em cuidador de idosos, dessa forma ela tentaria suprir os cuidados que não dedicou ao pai em seus últimos dias.
E assim foi com os primeiros pacientes, mas com o tempo, ela percebeu estar lidando com muitas despedidas, melhor seria não se apegar, e passou a tratar de uma forma profissional, impessoal, deixando os sentimentos em segundo plano.
Muito dedicada profissionalmente, chegava à casa do paciente sempre com antecedência, colocava seu tradicional jaleco branco, separava a medicação, se preparava para as rotinas de banho, refeições, passeios, geralmente em cadeiras de roda, conversas curtas e por fim se posicionava ao lado da cama, onde lia sua Bíblia ou assistia alguma novela.
Algumas vezes, saia de um paciente para outro, o que com o tempo, causou uma ligeira olheira que ela disfarçava com uma leve maquiagem. Para a filha, agora cuidada pela avó que viera do Piauí, sobrava o domingo e juntas iam a igreja.
Ela acreditava fielmente em Jesus Cristo, e em nome do Senhor, ela encontraria seu príncipe encantado, e viveria um grande amor, que traria de volta, aquela Helena que um dia teve tantos sonhos e fora tão feliz.
Parte 2 – Destino cruzado
Já na segunda viagem a rodoviária, o eixo monumental já havia engarrafado, Dionísio conduzia agressivamente entre brecadas bruscas e buzinadas constantes, em sua cabeça, havia um grito de estupido, idiota, que brigavam com afirmações, você fez o certo, é só arrumar o dinheiro para o aborto e pronto.
Nunca mais teve notícias de Helena, em poucos dias o sentimento de culpa havia passado, e a vida voltava ao normal, cervejas, sinuca, os amigos de bar, a conversa fiada, sempre as mesmas de futebol e política. Voltava para casa aos tropeços, e deitava sem sequer se banhar, ao lado da esposa que fingia dormir, cansada de tantas brigas.
Levantou um dia, e percebeu a casa vazia, ela fora embora com seus filhos, não sentiu raiva nem alívio, sabia que mais cedo ou mais tarde, iria acontecer. E naquele dia não foi trabalhar. Seu Miguel, o portuga, dono do Bar, estranhou a presença do cliente tão cedo, dessa vez pediu uma "Velho Barreiro" e começou a falar, primeiro da ingratidão da mulher, ele dava um duro danado para trazer dinheiro para casa e, e, a bandida não via isso. Que se danem, ela e aquele menino afeminado. Ele nunca aceitou a opção sexual do mais velho, botava nele a culpa de não ter conseguido sucesso como sindicalista, que por mais que gritasse vamos à luta, seu limite esbarrava sempre no mal concluído primário.
E foi assim que, dia após dia, de amarguras e faltas no trabalho que lhe custaram o emprego, seguido de um AVC.
A primeira e única visita no Hospital de Base, foi do Portuga, a assistente social, disse-lhe que não conseguiu contato com nenhum parente, e que Dionísio teria que ir para algum abrigo, pois já apresentava um quadro estável.
Em uma dessas incríveis coincidências da vida, Seu Portuga foi visitar um patrício bem sucedido que morava num amplo apartamento no Sudoeste, ele estava acamado e era atendido por uma cuidadora loira e pequenina, que discretamente lia sua Bíblia, a cabeceira da cama. O Portuga achou familiar aquele rosto, e não demorou muito, veio a lembrança dela em seu bar, bem mais jovem acompanhada de Dionísio, logo puxou conversa e lhe disse da sucessão de acontecimentos com o amigo. Ela ouvia sem espanto, em sua mente, vinha as palavras, "Deus tarda, mas não falha", é a justiça divina.
Pegou o endereço do abrigo e na primeira oportunidade foi ver o quadro de perto; e o que viu foi um quadro degradante; diante dela, estava um homem que nem de longe aparentava ser aquele Dionísio que tanto amou, magro, muito magro, os cabelos ralos, a boca torta e a visão para o nada. O álcool, o fumo, a obesidade, e a vida sedentária, cobraram seu preço e no segundo AVC pouco restava que ligasse quem fora ao que era.
Talvez por dó, ou por remorso, não por ele, mas pela emissão da existência do pai para a filha, ela resolvera levá-lo para casa. Talvez até mesmo, para justificar o que tanto lia em sua Bíblia, amar ao próximo e fazer o bem, quem sabe não seria a oportunidade de trabalhar o tão difícil ato de perdoar.
Parte 3 - Gabriela a continuação do sonho
Gabriela ao contrário da mãe, era uma menina alegre e falante, amava todas as festas, do Carnaval ao São João, dia da avó, dia mãe, chegada de primavera, época de Natal, Ano novo, tudo era motivo de alegria. O único dia que ficava amoada era o dia dos pais. Por um tempo questionou a mãe sobre seu pai, mas sempre ouviu a mesma resposta, que o pai fora um romance passageiro em sua vida, mas que voltou para o nordeste e que a última notícia que tinha dele, é que havia morrido em um acidente por lá. A tia dizia não ter conhecido, e sem sequer ter o nome do pai na carteira de identidade, ficava impossível investigar, com o tempo deixou pra lá.
Quando sua mãe chegou em uma ambulância com Dionísio deitado na maca, ela não fez nenhuma pergunta, não se espantou quando ouviu da mãe, que se tratava de uma pessoa sem ninguém, que estava abandonada num abrigo e ficaria por um tempo até que seus parentes viessem buscá-lo.
A magia do amor, pode levar um tempo para acontecer, mas somente ela é capaz de explicar a harmonia entre um ser que não emitia uma única palavra, que não se expressava, somente lacrimejava, com o olhar perdido no teto quando Gabriela segurava sua mão.
A energia dada e recebida, se transformou em amor. Dionísio chegara pouco depois que sua vó faleceu de morte súbita. Ela acreditava que Jesus tinha ouvido suas preces e com toda sua energia se dedicou aos cuidados do enfermo, como se fosse o pai que nunca tivera.
A rotina de Gabriela era intensa, revezava com sua mãe os cuidados com Dionísio ao mesmo tempo que terminara o segundo grau e estudava para o vestibular. Tinha muitos amigos, mas pouco tempo para conversar em suas redes sociais. O foco era estudar. Nada de festinhas, nada de namoro, somente estudar e cuidar do sempre calado Dionisio.
Então chegou uma tal de pandemia, e em pouco tempo sua mãe perdeu muitos pacientes, e os cuidados em casa triplicaram, tudo era higienizado, chinelas na porta, roupas escaldadas, sem visitas, sem visitar. As vezes tinha que sair para comprar o básico e encontrava ruas vazias, janelas fechadas.
A máscara do tempo foi cruel com quem trabalhava de jaleco branco, e logo nos primeiros meses abraçou sua mãe. Quem cuidava tinha que ser cuidada, mas Gabriela não pode ao seu lado no hospital, havia restrições, e também havia Dionísio que nessa altura era como uma taça de cristal, frágil e indefeso. Tudo que Gabriela fazia era rezar.
Na última ligação recebida da mãe, antes de ser entubada, Helena falou que estava melhorando, que Deus estava no comando, que era para ela continuar nos estudos e num pequeno deslize disse: - cuide bem do seu pai, e me perdoe em suas orações.
Todo o processo da intubação da mãe para a descoberta do que ela já tinha adotado como pai, foi um susto. E no revezamento da vida, Deus levou sua mãe e lhe deu o tão sonhado pai.
Epílogo
Dionísio morreu três anos depois, de falência múltiplas dos órgãos. Fora enterrado no cemitério de Taguatinga junto a Helena, uma chuva fraca dessas de garoa, aguou a reunião dos finais, os ossos ficariam juntos, mas os desencontros de suas almas continuariam pelas encarnações futuras.
O ônibus 0.928 passava pontualmente as 6h15 da manhã, saindo do Sol Nascente, Ceilândia, passando pela Estrutural, Cruzeiro, Eixo Monumental até chegar ao Palácio do Buriti, lá ela esperava a chegada de outro ônibus, o 168 com destino a UnB. Ao entrar, ela recebeu um grande sorriso do motorista e um sonoro, "Bom Dia", da cobradora, como se adivinhasse que aquele seria seu primeiro dia aula para a tão concorrida medicina da UnB, ela achou tudo tão familiar, tão reconfortante e pensou, são as bençãos dos novos tempos, finalmente um pouco de paz e normalidade em sua vida.
Sentou-se no ultimo banco do ônibus, ao lado de um garoto alto e de bermudas, casaco laranja e fones nos ouvidos, ela meio que distraída tropeçou e deixou cair os cadernos, ele atenciosamente a socorreu. E seguiram conversando, pelo percurso, ao se despedir, ela disse: - nos vemos por aí; ele lhe respondeu: - com certeza.
E riu ao perceber que nem sequer perguntou o nome do menino dos olhos azuis, da mesma tonalidade do céu, talvez o mesmo céu que Helena vira ao chegar em Brasília.

Ahhhhh!!! Amei!!! É muita criatividade diante de uma cena, meu padrinho! ❤️
ResponderExcluirAmei... a vida é assim mesmo, tantos encontros e desencontros... e no final as coisas se repetem.
ResponderExcluirEsse conto merece uma continuação... como seria a vida de Gabriela depois?
Quem sabe...
ExcluirTão lindo!!! o nascimento de Gabriela 17/12 . E o menino de olhos azuis? Tudo junto e misturado. Quero continuação.
ResponderExcluirÉ a vida como ela é. Belo texto!
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