Do chão pisado, do rio passado



No começo, fez-se dois cômodos e um banheiro, o que chamam de "meia água", a cobertura era de uma telha de amianto, que aquecia os cômodos, e como aquecia. Ao lado, uma caixa d'água de 500 litros, em cima de um quartinho sem janelas, que servia de depósito. Todo o restante da casa que estava por vir, já estava com a base definida, o quarto principal, o banheiro social, cozinha e uma sala enorme que num futuro próximo iria receber uma mesa de oito lugares, dois sofás, três janelas, estantes viajadas, armadores de redes nas colunas, e um piso queimado, que se entulharião de colchões emendados, onde crianças e adultos tentariam, assistir uma tv que iria transmitir sombras e chuviscos por longos anos, até a chegada da parabólica, mas tudo isso, somente depois de chegar a energia. 

No começo, era no escuro, a base de velas e lampião, o banho era frio, as árvores ainda engatinhavam  suas sombras. 

O João de Barro ainda haveria de esperar um tempo para preparar sua morada nos beirais das varandas. E essas varandas ainda iriam receber discursos de políticos e testemunhar beijos roubados ao perfume da dama da noite.

Foi assim, aos poucos, que migramos do conforto da chácara do coronel, repleta de  belezas, para consolidar nosso pedaço de sonho; em breve, o cascalho e a terra bruta dariam passagem a um gramado verde, o silêncio seria quebrado por gargalhadas, e cantorias de músicas sertanejas e forrós; as panelas traduzirião em poemas o cuscus, a mandioca o feijão e as sopas das mãos  mágicas e encantadas da minha mãe.

Em breve, haveriam crianças gritando, chorando, sorrindo. Adultos jogando, fumando e bebendo. Noites frias e estreladas. Em breve... 

E foi assim, um pouquinho mais até, foi assim, dormido no coração.

Mesmo tendo escutado outro dia, que não devemos retornar aos lugares que fomos felizes, eu me pego fazendo isso vez em quando, em pensamentos. Lá onde sei bem que nunca será vivido o que vivemos, ainda moram lembranças preciosas de pessoas maravilhosas. É um pedaço de chão que levamos cravado na alma. 



Comentários

  1. Caiu um cisco aqui... essas lembranças estão muito vivas dentro de nós, graças a Deus tivemos a sorte de vivê-las...

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  2. No meu tbm caiu... que saudade que deu... tbm me pego passeando por lá inúmeras vezes, relembrando o sorriso do meu avô e o abraço da minha avó 🥰🥰🥰🥰🥰🥰

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  3. Um espaço único (seria o paraiso?) Lembro que conseguir no GDF umas dezenas de árvores frutíferas que ajudei a plantar. Senpre foi meu maior e melhor refúgio.

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  4. A saudade é forte.
    Não acompanhei esta fase , morava longe mas adorava as vezes que podia fugir aqui e ele todo orgulhoso mostrava o progresso da obra.
    Lindas lembranças que você descreve tão bem.
    Isabel

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  5. É sempre bom lembrar! Não é uma volta ao lugar, mas um regresso as lembranças felizes de uma época dourada em nossas vidas! Agradeço muito aos meus pais, irmãos, filhos, sobrinhos e tantos mais, que ajudaram a construir esses momentos!

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  6. Ah, Henrique, que saudade!! As mãos encantadas... amei com força!

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