A esquina que separa dois reinos

 

Ao final do dia, de uma sexta feira, o sol se pondo, o rebanho vai se chegando, a igreja do Sudoeste, muitos em carros, alguns, não tão modestos, outros a pé. 

Sentado no trono de um castelo em construção, o portador das parábolas, em seus ritos, fala da grandeza do reino do céu, das sementes que caem no chão duro ou na terra boa, no bom patrão e seu perdão; fala que a mercê é longa e muitos serão os escolhidos, que batam as sandálias para não levar o pó dos que não o receberam bem. Fala da figueira que secou, da divisão dos pães e dos peixes, do espírito santo que é compartilhado aos que vivem uma vida reta e se confessaram. 

É um local de família, pessoas alegres, que chegam para pedir, mas também agradecer. É nesse momento, a hora que deixam a terra e juntam-se aos santos no reino do céu.

Na outra esquina, pós contorno, na comercial, é sexta-feira, hora do "happy hours",  não tem um só orador, são  vários, um em cada mesa, o reino que reina é explicitamente o da terra, assim meio etílico, também há amigos e famílias, os rituais são próximos, porém se chegar de carro é uber ou então, amigo da vez. As parábolas são as dos escritórios, das redes sociais, resenhas esportivas e até mesmo políticas. Do outro lado, o vinho é dosado a somente um participante, os demais estendem a mão como a receber na alma, o sangue e o corpo. Do outro lado, é aos gritos que se pedem aos garçons, mais uma rodada de chopp, pois a promoção só vai até às 20hs. 

Esses universos tão diferentes e ao mesmo tempo, tão semelhantes em suas buscas por um bem estar, se interligam, há os que frequentam ambos, logicamente em momentos destintos.

São dois reinos dividos por uma cerca, um em construção, outro efêmero, mas ambos necessários, atravessando o portal, ou entrando pelos corredores, levam-se emoções, compartilhamento, lágrimas e risos. 

Por traz do arame, a cruz, iluminada; do outro lado, acima, a faixada do letreiro tbm iluminado "Potiguar". Na divisa entre esses dois mundos, dois  guardiões da sabedoria ficam a observar quem vem, quem vai.

Uma familia de corujas, a girar seus pescoços pra lá e pra cá. 

 


Que nem as corujas, não julgo, só observo e sigo minha caminhada rumo ao meu apartamento, sob um maravilhoso por do sol, carregando meu saco de pão; o "pão nosso de cada dia".

Comentários

  1. Eitaaaaaa que tá inspirado!!! Rsrssrs... adorei! Acho que pra sexta eu prefiro o Potiguar! Rsrssrrssrssrs

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  2. Com certeza a esquina do Potiguar estava mais cheia para "alimentar o corpo"... a maioria das pessoas reservam só o domingo para cuidarem da "alma"

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