Me leva para casa


Ela não tinha ideia quem eram aquelas pessoas que a abraçavam e insistentemente chamavam de mãe, de vó. Mostravam fotos de uns tempos atrás, sorrindo, passeando, mas; mas aquela, não era ela. Nunca foi, essa não sou eu, dizia; eu sou o eu agora, essa que aqui está; não essa aí da foto.

E numa confusão de identidade, na aflição das perguntas, nem ela mais sabia quem era direito.

Então vem o mesmo pedido de todos os dias: "me leva para casa", as pessoas estão me esperando, me leva.

Pensava, onde foi que me perdi, realmente não sei quem sou, mas não devo ser essa aqui. A moça tem até meus traços, lembra eu mais jovem, mas só lembra, saiu de uma fita VHS, (risos), como pode, e essas crianças, mal educadas, riem de mim, porque não vão embora? 

Minha casa, tenho que ir pra lá. Tenho que tomar banho, botar minha camisola, esperar meu pai, ele já deve ter chegado do comercio, mamãe precisa que eu cuide das meninas, ela tem que fazer os pastéis para vender amanhã.

Tá ficando tarde, nada parece fazer sentido, me dão remédios, estou com sono, rastejo meu pé esquerdo ao caminhar, não quero admitir mas estou de mau humor, muito perto de um "basta".

Chega outro filho, esse eu conheço, já vai perguntando, e então mãe, vamos para casa? Tá na hora!

Beijo ele e já vou pegando a bengala, vou buscar a sacola, ele diz, deixa que as meninas vão na frente e levam, aproveitam e já vão abrindo as janelas para ventilar. 

A cadeira de rodas facilita, já não me canso tanto, aproveito o jardim, as flores, vejo as árvores altas, alguns pássaros, enfim a portaria, os porteiros já me conhecem, dão boa tarde;

Marlene já fez a sopa, ah! minha cama, meus santos, tudo lá, na penteadeira. Tudo a minha espera, minhas coisas.

Obrigado filho, Deus lhe pague.

Beijo mãe, boa noite, tô por aqui se precisar.

Era assim, muitas vezes, ontem foi uma parte do sonho, uma pena ter que acordar, ainda tentei dormir novamente, mas abria os olhos e via que estava "em casa".

Esse conto é dedicado a minha querida mãe, que durante muito tempo levou uma vida normal, dedicada a grande família, sempre doce, amável e sempre atenciosa com todos, não que o alzheimer tenha mudado uma vírgula desse amor, mas, nos apresentou uma nova versão, livre das amarras do consciente, como ela bem falava: - a idade me permite.




Comentários

  1. Ah, que saudade dela! Tão real e inquietante o seu relato, Henrique! Só a agredecer por todas as vezes em que levou esta querida para casa!

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  2. Ah Bigas... ler essas linhas é reviver os momentos, que vontade de abraçar novamente, de dar um beijo nos seus cabelos prateados, sentir seu perfume... que sorte a sua reviver em sonho... no final da leitura as lágrimas caem em cachoeira, lavando esse coração saudoso. Gratidão por compartilhar com a gente essa linda recordação

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  3. Doeu até na alma. Acho que hoje estou muito saudosa. Falei dela com a fisioterapeuta que está me atendendo em casa. Muitas lembranças. Obrigado sempre por nos presentear com estes lindos textos. Com certeza hoje ela está em casa e esperando os que vão chegar.

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  4. Eita que passaram-se vários filmes por aqui.... porque bem sei, que nem sempre as noites eram calmas, os santos continuavam a remete-la ao porto seguro, , a sopinha de Marlene, eram momentos, mas infelizmente eram esquecidos e a confusão voltava.. Até hoje é difícil me perdoar pela falta de paciência, o console e que elas foram bem menores que os cuidados. Todos nós fizemos a nossa parte dentro de nosso limite. Os sonhos são sempre bem saudosos.. E adoro quando um de nós, relata eles.

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  5. A arte de urdir textos que dialoga o coração, a alma e a memória saudosista de quem amamos é para pouco. O seu texto "cabralino" é único. Parabéns!

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  6. Lindas recordações! Tenho sonhado muito com ela também!

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  7. Poxa... queria sonhar com ela... a única vez que sonhei ela tava brigando com.vc, né meu padrinho?! Rrsrsrs... pra não fazer barulho e deixar os meninos dormirem... rsrsrssrs...
    Mas esse relato faz mesmo viajar no tempo... lembrei do último dia que fiquei com ela lá no Rio, na agonia de querer ir pra casa e eu ter que ligar pra bisa pra avisar que ela só ia no dia seguinte... e ela ficou feliz, me agradeceu e encostou no meu ombro, enquanto segurava a minha mão... que saudade deses momentos, desse rostinho... das nossas longas conversas e da proteção e segurança que ela me dava! Mas seu que continua cuidando de min.. cuidando de todos nós! Obrigada meu padrinho! TE AMO!!! ❤️

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  8. Essas palavra me fez voltar no tempo você fez uma narração exatamente como acontecia muita saudade saudade eterna

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  9. Lindo relato de amor, de cumplicidade, de dedicação. A saudade sempre vai existir. Nosso consolo é saber que agora trilham um caminho de luz. Uma linda estrelinha que nos protege lá de cima. Bateu saudade da minha mãe também. 🥲

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  10. Hugolino D'oliveira Neto2 de julho de 2024 às 05:19

    Perdi o sono as 5 da madrugada, e li novamente esse blog. Henrique, você tem uma capacidade incrível de nos emocionar com suas lembranças. Quanta saudade!!!

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