A estante
O ano devia ser 1965, local Juiz de Fora, Minas Gerais, Bairro Santa Catarina, próximo a Paróquia Nossa Senhora da Glória.
Vejo uma criança assustada, percorrendo com seus pequenos olhos curiosos, a minúscula sala que morava. É noite, ela observa a porta da frente que tinha uma janelinha ao alto, ela sabe que do outro lado, se avista o cemitério e por nada nesse mundo ela irá abrir aquela janelinha, então muda o trajeto ocular para a vista da janela lateral onde de dia se via o muro alto que limitava a casa com um matagal do terreno ao lado; bem ao longe, pequenas casas, pareciam mais quadros pintados, dava para ver ainda uma chaminé de uma fábrica distante, naquela hora da noite, era um breu só, e tudo parecia fantasmagórico, a escuridão brincava com as bananeiras escondendo as luzes da roda gigante, não tão gigante assim, mas que brilhava como uma estrela no alto da serra. A sala da casa tinha como atração principal uma cristaleira que hospedava presentes do casamento; mais adiante, a mesa, as cadeiras, tudo embaçado em meio a fumaça das lembranças.
Essa foi a primeira sala da minha memória.
No final de 1968, meus pais atravessaram um mar de cerrado, rumo a nova capital da esperança.
De início foi um ping-pong de salas vazias com colchões esparramados e meninos amontoados, até tudo voltar a tomar forma novamente.
A sala de estar da 306 norte proporcionava uma ampla visão, quinto andar, 504; de mobília, um pequeno sofá e uma mesa de centro.
No ano de 1970, com a mudança para o SMU, nossa sala, esse pequeno local de encontro começou a ganhar componentes que nos acompanhariam por muitos anos. Chegou a TV preto e branco, e sua mesa, também havia uma estante de prateleiras, sustentada de tijolos que recebia o telefone e seu cadeado, a coleção de Humberto Campos, com seus vinte e três livros, e os vinte volumes da de Plínio Salgado que meu pai herdou, uma coleção de curiosidades, um tataravô do Google de hoje, e a enciclopédia Delta Larousse base dos nossos estudos.
Lembro do dia da compra dessa enciclopédia, um desses vendedores que vão de porta em porta, fez meu pai assinar um tanto de promissórias em troca dela, veio acompanhando o conjunto, um mini laboratório que serviu mais para brincar que estudar, além de um grosso dicionário.
Esse grande volume de informação necessitava de uma moderna estante, que veio com mudança para o Cruzeiro. Era em madeira maciça, dois módulos interligados por prateleiras, um dos espaço fechado servia de barzinho, sempre com uma aguardente, um Cinzano ou Martini, as vezes um conhaque ou uma garrafa de vinho. No outro, as taças de cristal da antiga cristaleira. Acima ficavam os canecos dos festivais de chopp's ou de guaraná do Pandiá. O destaque ficava por conta do caneco de alumínio, homenagem dos amigos de praça ao Sargento Herculino, era como um copo Stanley de hoje. Espalhados pelas prateleiras surgiam cinzeiros, de inox, porcelana ou de gesso, pequenos, grandes, mas sempre cheios. Um porta retrato aqui, outro acolá. Ao centro da estante a atração principal, a nova TV, agora colorida, não sendo mais necessário colocar plásticos de encapar cadernos, sobrepostos para criar a ilusão das cores. Graças ao suor do meu irmão Hugo, as cores entraram em nossa sala.
Talvez esse conjunto tenha sido o auge do nosso pequeno mundo familiar, se essa estante tivesse olhos e sentimentos ela teria se maravilhado com o crescimento dessas crianças, a explosão de gritos das torcidas bem divididas frente a televisão, dos telefonemas apaixonados que escutaria, das velas de bolos sopradas, dos passos de danças, dos carnavais.
Seu destino foi uma aposentadoria na chácara, lá ela dividiu seus módulos, e meio bamba de tantas mudanças assistiu a chegada da imponente estante do coronel.
Em seu último ato, já largada a beira do quartinho de depósito próximo ao galinheiro, foi colhida e levada ao fogo para alimentar uma cachaçada desse que escreve e que não queria que a noite terminasse.
Ao final cumpriu seu destino, do pó ao pó, das cinzas ao vento, soprada no verde gramado da saudade de outros tempos.

Ah Bigas... de Juiz de Fora não lembro de nada, só da casa do SMU. Lendo seu texto maravilhoso me vejo passeando nessas memórias, quisera ser uma pessoa famosa para o Luciano Hulk reproduzir-se o "de volta ao passado" , mas faltariam os personagens principais.
ResponderExcluirSempre cai um cisco nos olhos imaginando a história que vovô e vovó construiram com vcs!!! E lembrar da chácara e da estante chega a doer a saudade... ela viu os filhos e os netos, né?!! Obrigada pelas lembranças de sempre, meu padrinho!!! TE AMO!!!
ResponderExcluirQue crônica maravilhosa. Belo texto. A companheira da coleção políticaa do Integralismo.
ResponderExcluirde Humberto Campos era outra coleção a de Plínio Salgado,
escritor brasileiro que orientava teses sociais e políticas do Partido Integralista Brasileiro. ANAUÊ!
Havia me esquecido de Plínio Salgado, valeu Cabral
ExcluirQue delicia voltar ao passado. Entre lembranças e esquecimentos ,.recordo de uma infância feliz cheia de aventuras. Era difícil mas sempre uma família feliz.
ResponderExcluirMuito legal a lembrança das salas já vividas! O bairro era Santa Catarina e não Gloria, mas quem liga pra isso? O importante são as lembranças legais e a merecida homenagem aquela estante! Hoje se eu descrever a minha sala, teria que explicar o tal Home-ofice kkkk
ResponderExcluirHenrique que sequência deliciosa de lembranças que, confesso, só comecei a acompanhar com imagens reais a partir da estante de tijolos.
ResponderExcluirParece tanto com cinema. Obrigada por esta viagem. 🥰