Obrigado vó
Não se pode medir o coração de uma vó. Isso é fato.
Há aproximadamente uns 40 anos atrás, e me espanto com tantas décadas, eu tinha uma reputação meio arranhada com o clã dos Cabrais, primeiro por ter feito pouco caso, no mais que futurista emprego, no CPD da fábrica Guararapes, na verdade eu trabalhava na preparação de dados, nada tão fenomenal. E por se achar meio parente do dono, relaxei no feriado de carnaval e fui "despedido".
Na segunda tentativa, meu querido tio, digo isso agora, pois reconheço o quão difícil deve ter sido, e arriscado, cometer um nepotismo, em uma época de guerra política entre os "Alves" e "Maias".
Trabalhava de seis a meia noite, e nas sextas-feiras só voltava para casa no sábado de manhã, para botar um short de banho e ir para praia.
Um grande amor atravessou o caminho, e gerou muita ciumeira no ambiente. A fofoca chegou até mesmo no clã da família.
E foram dias tumultuados de desejos e medos; o destino tramando com apartamento em Ponta Negra, o susto de uma gravidez inesperada, e os ventos fazendo meu pai falar de ir para reserva e voltar para Brasília, compunham o cenário.
Não havia mais o que ponderar, Brasília novamente, família junta, de volta ao planalto.
Porém, quando o que é novo, vai se tornando o de sempre, o coração te chantageia. E dos telefonemas longos e caros, das cartas desenhadas e volumosas, surge a vontade de retornar.
Amor de pai e amor de mãe, são igualmente inexplicáveis. Novamente aceitam minha decisão, e me apoiam. E tome chão rumo ao nordeste na Viação Planalto.
Talvez pela mágoa, talvez pela demora, talvez sei lá o motivo; de quem eu mais esperava os beijos e abraços, vieram, o talvez, e a frieza. E nada mais foi igual.
Aí entra a avó.
Dizem que era brava feito siri na lata, mas comigo era só xodó, ela teve a percepção de acolhimento, e dizia palavras otimistas, me botava para cima, comprava umas cervejinhas para bebermos escutando Gonzaguinha a noite, isso claro, de vez em quando.
O mercado de trabalho não era dos melhores em Natal naquela época, e não demorou a surgirem os comentários do clã, de que eu estava caçando grilo e sendo financiado em cerveja e cigarro. Não os culpo por terem esses pensamentos. Mas havia algo que eu dava para ela, que eles não conseguiam dar, e isso causava um desconforto neles, era o fato dela estar feliz com minha presença.
Ainda me lembro das nossas conversas, noite a dentro, ao lado, Ceicão, "Mulau", sua velha escudeira, já cochilando na cadeira de balanço, batendo na perna de vez em quando, para espantar as muriçocas.
Da minha rede, no quarto de trás, chegava o som da rádio Nacional AM, e suas serestas, minha vó dormia com o rádio ligado, imagino que sonhando dançando com meu avô todo de terno branco.
Foram alguns meses de tentativas, sempre contando com suas palavras, seu carinho. Gosto de acreditar que fui um remédio para os dias de longas horas dela.
Mas se o coração me fez retornar, foi também ele que me levou novamente de volta, como maré sem espumas, vim e voltei em outros sonhos.
Nesse egoísmo existencial que vivia, devo ter machucado muito minha vó. Peço desculpas e creio que ela tenha me perdoado.
Lembrar dela, é lembrar de uma das suas tantas frases, "tudo com o tempo, tem tempo".
Hoje passados tantos tempos, o amor que me levou e o amor que me trouxe, já não existem em mim; o Henrique que foi e o que voltou, também não. Mas o amor por minha vó, esse nunca mudou nem mudará.
Valeu Vó


Ahhh que lindooo!!! 🥰🥰🥰
ResponderExcluirAcho que avó é tudo de bom! Ter vó é maravilhoso e ser avó é melhor ainda
Que história legal! Não me lembrava mais dessa passagem sua para Natal. Vovó sempre foi muito pra cima, e sempre tinha palavras de otimismo para nos dizer. Mas que bom que você voltou e fez sua vida aqui, perto de nós. Uma linda lembrança. Valeu!
ResponderExcluirSão as bifurcações da vida, cada escolha uma renuncia.
ExcluirLindo, Henrique!
ResponderExcluirQue viagem no tempo maravilhosa 👏. Você está afiado no estilo, meu irmão. Continua, continua...
Obrigado Joana, minha vó continua me inspirando
ExcluirVovó Tarcila e Mulau companhias excepcionais..Essa sua experiência foi única para vvs. De Vovó guarda a lembrança da galinha ao molho pardo, a paixão por Aluísio Alves e o grande amor aos netos. Mulau, uma santa de alma feliz. Certa vez comprei uma.coleção de pratos para ela. jamais esquecerei o i qualquer outro presente a tea
ResponderExcluirAmo esta mulher com todas as minhas forças! Ela era puro amor! Lia pensamentos e estava sempre com a solução na frente!
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