Tênis velho, lição para uma vida
As necessidades aumentavam na casa 115.do SMU. De noite para o dia, os pés cresciam, as roupas encurtavam; essa era a rotina do sargento e seus oito filhos, no ano em que a nação tornou-se tri-campeã mundial de futebol.
Um ano depois, 1971, era inaugurado o primeiro shopping de Brasília, o glorioso, Conjunto Nacional. Com ele, era inaugurada a modesta Baby Armarinhos, e minha mãe seria convidada a trabalhar como primeira funcionária do estabelecimento. Seria uma forma de ajudar no pequeno orçamento familiar. Essa ausência materna abriu caminho, a uma inumeráveis Marias, Marluces, Cidinhas, Teresinhas e outras guerreiras que, carinhosamente nos alimentaram, nos deram broncas, e contaram estórias de terror na hora de dormir.
No período de férias escolares, as vezes, sobrava para mim, pegar o TCB para levar a marmita da minha mãe. O delicioso aroma passeava pelas cadeiras do ônibus do SMU até a rodoviária.
No auge dos meus 10 anos, já me considerava um rapazinho, e ficava batendo pernas pelas lojas.
Certo dia, fui ao monumental supermercado Jumbo, que depois passaria a se chamar, Pão de Açúcar, na época era o único supermercado e loja de departamento da capital. Minha missão teria sido simples, comprar um tênis novo e um lanche para a tarde. Na ansiedade e inocência comum a idade, coloquei o tênis novo no pé e passei no caixa, com o velho na mão. Só que tive que retornar pois havia esquecido o lanche. E bastou passar em um outro caixa, só pagando o lanche, para sentir a mão do segurança me arrastando para um quartinho no andar abaixo, lá levei um sermão e uns petelecos na orelha e entre lágrimas tive que retirar o "Bamba" novo dos pés.
Posto em liberdade, subi segurando o choro ao terceiro andar, onde o que mais queria, era os braços da minha mãe.
Depois das lágrimas serem secadas, retornamos ao Jumbo, e com a força da verdade, minha mãe entrou sala adentro da gerência. A história foi contada e percorremos todos os caixas, até que uma das últimas confirmou minha versão. O gerente fez o encarregado da segurança pedir desculpas, e deu-lhe uma chamada daquelas, ali mesmo, frente ao público. Pediu mil desculpas a minha mãe e devolveu meu tênis, assim, como quem devolve a dignidade a alguém.
Naquele dia, voltamos para casa em silêncio.
Não sei bem qual foi a reação do meu pai, que a essa hora já havia chegado do quartel e tomado algumas doses de Pitu para, como ele dizia, tomar coragem para o banho. Mas imagino o tanto que minha mãe se esforçou para acalma-lo, e contornar a situação.
Passados alguns tempos, ela foi convidada a trabalhar no Jumbo como chefe de seção.
Novas amizades foram iniciadas, e novos tempos vieram.
Mas, mesmo passados cinquenta anos, é lembrança viva, que ressoa, de um dia que começou em alegria, virou terror, crença e justiça.
Conto essa história, ainda agarrado a um tênis velho, e ao imaginário e reluzente "Bamba" nos pés. Foram passos inseguros de uma criança de dez anos e a ferocidade defesa de uma mãe, sem igual, que acreditava na verdade dos seus filhos.
Foi só um tênis, foi só um susto, mas foi o melhor exemplo que vivi.

Esta era mamãe, guerreira e justa.
ResponderExcluirImagino o sofrimento dessa criança de 10 anos, e o tanto que essa lição ficou gravada... e mamãe sempre muito justa, maior herança que poderia ter deixado para todos nós
ResponderExcluirQue judiação... mas a vovó explicou que tinha que pagar antes de colocar nos pés? Rsrsrs... mas a atitude dela deve ter sido fera demais!!! Se sentiu vingado, né?! Rsrrsdsrsrs
ResponderExcluirTô com raiva até agora!! Imagino o que mamãe sentiu! Viva! Justiça feita. Mas... essa história me fez pensar em tantas pessoas, que por ter a cor da pele preta, passam por isso todos os dias... em padarias, supermercados, lojas e até na rua. A injustiça é uma merda!
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