O dilema de Jacó
No salmo do dia, o refrão, vamos dizer assim, é: "Feliz quem se apoia no Deus de Jacó!".
Daí para começar essa história, tenho que recorrer ao tradicional início...
Há muitos e muitos anos atrás, existia um vale chamado Andorinhas. Lá morava Jacó, um humilde trabalhador rural, caseiro de uma chácara de um senhor das armas, já em seu descanso da reserva do exército brasileiro.
Jacó era um homem trabalhador, temente a Deus, dedicado a família, olhos pequenos, voz mansa, jeito simples de ser. Tinha como fiel escudeiro, seu cão, Titica. E sem querer ofender a nenhum anjo celestial, Titica fazia muito bem o seu papel na terra.
Jacó tinha um ponto fraco, o álcool, mas como era um ponto em comum de tantos outros, se tornava aceitável. O porém é que se tornava engraçado.
Certa vez, a chácara se tornou palco político para um candidato a vereador, discursar suas ideias. A comunidade reunida frente a varanda e Jacó ao fundo, já com os olhos tortos e voz alta, já tomado pela legião, hora dizendo: muito bem, apoiado, hora dizendo: fora ladrão, governo safado. Muitos achavam graça, mas não o livrou de uma chamada segura de meu pai.
Tempos atrás, organizarmos a primeira entre muitas festa junina, na chácara. Tudo dentro dos conformes, fogueira, comidas típicas, quentão, milho assado, Chitãozinho e Chororó na vitrola, o detalhe que quase passou despercebido foram as bandeirolas, todas recortadas de uma coleção de revistas Playboy. Ficou bem colorido, mas nada tradicional.
Aconteceu que nosso personagem nesse dia, animado pela festança, havia tomado todas e mais algumas, e não aceitou bem a recusa da filha da Marlene para dançar. Achando um desaforo, tirou o facão da cintura, riscou o chão e deu aquele bafafá. Foi preciso minha mãe com toda sua luz tomar a arma de sua mão e manda-lo dormir.
No dia seguinte, de banho tomado, cabelo lambido por baixo do chapéu de palha, paletó cinza, já meio surrado. Bíblia na mão, e o cão guia, companheiro de jornada ao lado, partia para a igreja Evangélica do Pedregal, era domingo, e as palavras firmes, o manteriam sóbrio, um homem de Deus, por semanas. Até que caísse novamente em tentação, e ficasse dormindo no caminho de volta, ao lado da velha bicicleta, vigiado pacientemente por seu cão Titica.
Em um desses retornos noturno, se deparou com minha mãe e minha tia que se revezavam na ladainha das Aves Maria, subindo a rua em uma parte mal iluminada; esse encontro entre os poderes da luz e das trevas, fizeram com que saísse em disparada com o coração acelerado rogando perdão a Deus.
E aí novamente assumia sua aptidão de ovelha, com sua bíblia debaixo do braço do paletó desbotado, com seu cão, e sua dignidade reativada.
Eu o via sumindo na poeira, rumo ao Pedregal, com passos curtos, que se repetiam, que nem suas ações, hora retas, horas incertas, descendo entre o Bar do Cid e o Bar do Bené, clamando em pensamentos, a ajuda divina naquela manhã cinzenta e fria, dos Agostos e desgostos do Vale das Andorinhas.
Jacó voltou para sua terra, tive notícias que veio a falecer, não sei a causa, talvez por algum descuido de seu anjo da guarda de quatro patas, ou simplesmente, por ter cumprido seu tempo, sua missão.
Ficaram as histórias e estórias, ficou a imagem gravada desse bom filho de Deus e seus dias em nossas vidas.


Ah Bigas.. tão bom recordar, seu relato tão cheio de detalhes nos faz viajar no tempo.
ResponderExcluirE acumular memórias coletivas que é o objetivo
ExcluirEsse comício foi ímpar...Lembro que fiz negócio com o Jacó na compra e venda de um aparelho de som.
ResponderExcluirE o celular que existia naquela época, nem sonhava em fazer um video
ExcluirOlha tio Edson aproveitando todas as oportunidades! Rssrrsrs...
ResponderExcluirEssa história do facão é verdade? Essa não sabia não! Rsrsrsrs
Deu saudade da chácara... me vi andando nas ruas empoeiradas!
Obrigada meu padrinho! ❤️