Paciência

Por pouco, muito pouco mesmo, o ônibus da Viação Cometa, que seguia para a nova capital, não se colidiu com o Itaperim, que levava a família Fernandes para o sonho da casa nova, no distante bairro de Paciência no Rj. 

O ano de 1968 já quase fechando no seu último mês; haviam passado cinco anos, desde a longa aventura de pegar o Itaguatiá, margeando a costa brasileira até o Rio de Janeiro e depois mais alguns quilômetros até a gelada cidade de Juiz de Fora, quintal do Rio como era conhecida. 

Agora o caminho era inverso.

Em suas duras poltronas um aglomerado de projetos humanos empilhados, lado a lado, no que viriam a ser esses futuros cariocas. 

A casa era modesta, dois quartos, uma pequena sala, banheiro, cozinha e um quintal com sobras de material de construção não recolhidos. 

Não tinha muros, nem tampouco asfalto nas ruas, os postes de luz eram  espaçados, mantendo um certo breu, um certo medo. Mas nada desanimava o tão jovem militar e sua numerosa família. É certo que a esposa, já havia se acostumado com o apoio da paróquia mineira, mas com tanta gente, não se permitia a lamurias, todo seu empenho era para ajudar o marido, que investiu, a parte da herança que o pai deixou das terras, com pouco valor no interior do Rio Grande do Norte.

Com o passar dos tempos, as crianças iam crescendo, entre sarampos e cataporas, febres e dores de barriga, disputas por atenção e algumas brigas, e muito, muito barulho para a cabeça de Bertilha, que nos acompanhou desde de Natal. Por um bom tempo, ela foi a escudeira da casa, mas, depois de tantos barulhos na cabeça, ela se encantou por um português, casaram-se e se mudaram para a capital federal, onde abriram a sua primeira farmácia, que depois viria a se tornar uma das maiores redes farmacêutica de Brasília.

O Rio de Janeiro, assim como São Paulo, era rota de fulga para nordestino refugiados da seca, não era o nosso caso, mas muitos dos nosso vizinhos tinham essa historia no curriculum.

O bairro cresceu e trouxe com ele a criminalidade, bairros vizinhos, Campo Grande, Santa Cruz, Cosme, todos sofrendo do mesmo mal. 

Vendo a ameaça que cercava a família, e contando com as orações mais que fervorosas da esposa, o agora sargento, alugou a casa em Paciência e se transferiu para a Vila Militar, transformando mais uma vez o destino de todos.

O mais velho, que já em Minas, ajudava na igreja como coroinha, pegou gosto pelas rezas e seguiu a vocação do tio, trabalhou devotamente, nas comunidades a base de hóstia e vinho. 

O galego, como era conhecido desde criança, trabalhou na praça para o portuga de Bertilha, depois comprou seu próprio Fusca e tocou seu negócio, e assim como o "Carlão" da novela "Pecado Capital", virou dono de uma pequena frota de táxi, mas seu maior prazer mesmo era cantar nas serestas e churrascarias dos subúrbios do Rio. Chegou a participar de um Festival de música e teve um reconhecimento maior, além de faturar o prêmio e o apelido de "Galego da voz de ouro", encantou uma jovem adolescente, moradora do Maier, filha também de um militar, que a vida deu voltas e mais voltas para no fim, se tornarem um só corpo, em um casamento badalado em São Cristóvão. 

A primeira das meninas, tinha um dom de mandar, e de tanto mandar, fez carreira escolar, a princípio como professora, logo depois diretora. Quando ficou viúva do primeiro casamento, ela foi trabalhar em Teresópolis, por um acaso do destino, foi professora de uma aluna mal criada, filha de um coronel, que se encantou por ela e seus três filhos.

O quarto, o que certa vez achou que iria virar bolo, por ter comido fermento, partiu para área de jornalista, sentia a necessidade de saber e repassar tudo. No Rio tentou fazer jornalismo criminal, só que alguns não gostaram tanto de suas matérias, teve que sair às pressas para Miracema do Tocantins, ali um novo Estado nascia, e em meio a uma entrevista com uma funcionária do Ibama, sobre filhotes de tartarugas, criou paixão e fez família.

Pulando o quinto elemento, passamos para a sexta, a morena espoleta, passista das noites cariocas, não demorou muito a se sobressair nos desfiles de Escola de Samba, mas quis o destino colocar em sua vida um feirante bom de lábia, que de pastel em pastel nos domingos, fez uma bela família de cinco filhos.

A primeira galega, dos olhos azuis do pai, tinha uma personalidade forte. De início frequentou muito o HCE para tratar dos nervos, mas com o tempo, vieram os namoros e os morenos, e o restaurante e a feijoada da Teresa, famosa no Largo do Campinho. Teve três lindos filhos, todos apaixonados por futebol.

A caçula, trouxe preocupação quando criança, a ponto de ser colocada nos braços de Nossa Senhora, foi curada, e cresceu uma linda criança, uma adolescente meio rebelde, mas que depois se encontrou nos palcos, e rodou o Brasil com peças teatrais. Como frequentadora do meio artístico, foi numa exposição fotográfica, que encontrou sua costela. Hoje vivem em Portugal, entre viagens, queijos e vinhos, curtindo sua melhor peça, Nina.

Bem o quinto elemento, foi quase surfista, quase jogador de futebol, meio gigolo, anotador de jogo do bicho, vendedor de mate leão nas praias, e por fim, guia turista de segunda categoria. Conhecia tudo do Rio, e sabia contar estórias, um verdadeiro "Forest Gamp". O que não contava era se envolver com uma adolescente em sua viagem de formatura de segundo grau. Uma aventura que lhe custou o emprego e os cabelos. Virou motorista de Uber, e nem sequer imagina que a 1500 km de distância um jovem compõem suas primeiras canções em acordes de dó maior.

Mas com a benção do irmão mais velho, o pescador, quem diria, conseguiu se livrar da cachaça e hoje só toma seu chopp e suas cervejas e toca a vida como pode.

O velho militar da reserva, cedeu aos pedidos da filha lusitana, e foi morar numa tranquilidade casa de idosos, na cidade do Porto. Ficou um pouco perdido quando a vassoura da COVID levou sua companheira de vida. Mas mesmo com as mãos trêmulas, embaralha as cartas e pacientemente distribui em sete montes. O enfermeiro pergunta, o que estais a jogar? Ele sorri e responde: - paciência, P a c i ê n c i a.

Dia nove do mês que vem comemorará seus 92 anos de vida, de presente terá de Deus o de sempre, o sonho do enorme avião e suas asas douradas.


Comentários

  1. 🤣🤣🤣🤣🤣🤣 adoreiiiii meu padrinho! Ficou ótimo!!! Bem.que mamãe falou que daria uma boa história! Rsrsrs...

    ResponderExcluir
  2. Amei.. a imaginação explode nesta cabeça.

    ResponderExcluir
  3. Um roteiro de docudrama que mistura ficção e realidade. Muito bom.

    ResponderExcluir
  4. Sabia que ia ficar maraviilhoso. Grande contador de historias quem diria que começou com uma reportagem de jornal. Sua imaginação flui. Que Deus te conserve assim.
    Adorei o e se derepente paciencia.....

    ResponderExcluir
  5. Como ficção ficou bom. Mas acredito que seria bem diferente! Casa pequena demais, local violento, escolas distantes, seria um tormento para mamãe. Dou graças a Deus todo dia, por não ter dado certo. Quem vendeu, enganou nosso pai.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas