Contraternização


Contraternização

Sendo minha última temporada no trabalho, vejo que se repetem os mesmos rituais. A novidade é que dessa vez, pelo menos, houve uma reestruturação nos assentos, diretores e funcionários intercalados.

É o dia de quem nos paga o pão nosso de cada dia, literalmente, nos pagar tbm a picanha, o salmão, o chopp e as sobremesas.

O local é o mesmo de dois anos atrás, Pontão Sul, beira lago, o tempo colabora e ao final ainda se projeta um sol e um céu azul, para ajudar nos self's.

Todos de barrigas cheias, alguns com a alegria aumentada pelas bebidas, e começam os discursos. Mais uma novidade, a palavra é aberta a todos, e um a um, enaltece o trabalho vencido, o serviço de todos, etc e tal.

O diretor parlamentar faz seu agradecimento a equipe e lembra que o próximo ano será de muito trabalho. Ao seu lado a que faz o discurso, só reafirma as palavras do anterior, "muito trabalho".

E assim sucessivamente, um diretor, emocionados por situações diversas, lembra que se deve viver o presente. Por fim o presidente que reafirma o valor da instituição, que estamos de passagem por ela, e que colaboramos de forma efetiva para seu sucesso. Ele agradece a equipe e por fim, acatando a sugestão do diretor técnico chama a todos a uma oração.

Eu tive a oportunidade da palavra, porém, me calei. Acho que sou lento no falar, ou as palavras ficam querendo antecipar as ideias, e me enrolo, ou me emociono, sei que tenho receio delas, das palavras. Eu poderia ter iniciado, lamentando as ausências dos colegas que ficaram pelo caminho, que infelizmente foram descontinuados em seus afazeres.

Mas acho que esse discurso não seria muito popular, melhor focar nas coisas boas, tipo, é dezembro e sobrevivemos.

A vida seria bem melhor se houvessem 11 dezembros comemorativos e um fevereiro de trabalho.

Há pessoas que são "mês do Natal", elas passam o ano inteiro mofando mal humoradas dentro de uma caixa, e quando saem, são luzes pisca-piscas, são árvores decoradas, são músicas natalinas, são sorrisos, presentes e ho! ho! ho!

São pessoas que passam o ano em críticas, atritos e discussões, com tipografia nos tamanhos de capa de jornal, e que ao final do ano, pedem desculpas em minúsculas letras de rodapé na última página.

Na rodada do ano, elas já voltaram para suas caixas, já recolheram suas bolas coloridas de plástico e suas estrelas artificiais, tudo de volta ao mofado quarto das suas inseguranças.

Ainda bem que não abri a boca para discursar, senão, minha aposentadoria chegaria mais cedo.

É isso. Nada é eterno, nem nós, nem mesmo as instituições. Guardarei as palavras e os abraços de quem realmente fez por merecer. 

Comentários

  1. Tudo igual, só muda o CNPJ... graças a Deus que chegam os janeiros e as merecidas férias

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  2. É nessas horas que o sábio se cala. Apenas agradece!

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  3. Sua melhor crônica de longe! Que perfeição 👏👏 Se resolver colocar sua fala, temos um roteiro de um curta premiado!! Afinado, Henrique! Que texto!!!

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  4. Participei de poucas confraternizações na prefeitura, mas era mais com os amigos, sem chefes, mas com a narrativa, imagino exatamente como funciona... tsrsrsrrssrrss... e viva os novos Janeiro! Rssrrssrs

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  5. Nada é mais cafona, falso e divertido do que Confraternização de Natal. Não sei se é pior quando colaborador ou, na figura efêmera, de Chefe. As vezes (e foram tantas) sempre organizei algo diferente. No SESI organizei um teatro musical penso que foi o melhor. Na SECAD organizamos uma almoço no Corredor e fizemos uma campanha de presentes. Gostei da alegria dos meninos da Capadócia (uma favela na Capital que se diz moderna). A última foi na ATR' fizemos uma encenação do Presépio. A pior de todas foi quando me vestir da ridícula fantasia do Papai Noel e e mais 30 palhaços " puxa-sacos"' para a alegria de um Governador que meses depois foi causado.

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