A janela e o mar
Sentada frente a pequena mesa, no espaço que divide a sala da cozinha, em um determinado momento, ela gira a cabeça, e o olhar se perde pela janela, donde desponta, como que uma pintura, o verde mar, e seus pequenos barcos a balançar distante; ela observa as gaivotas que mergulham em vazantes contínuos;
É também em pequenos mergulhos, que nas suas lembranças, ela percorre o longo caminho, cheio de idas e vindas que a levaram aquele momento.
A tão parecida semelhança com o pai, a pele morena, tão distantes das brancas e loiras irmãs, os olhos cor de jabuticabas, os dentes projetados para frente. Tudo havia de compor uma menina geniosa e impulsiva.
Essa pequena nau, ainda criança, navegou por outros mares, outros ares, quando foi morar com uma tia em Caraúbas, mas o vazio na casa e as lágrimas da mãe, encurtaram a experiência.
A vida havia de lhe oferecer novas oportunidades, e ela chegou em forma de bolsa de estudo no renomado colégio Lasalle, onde estudou por um ano, mas uma escarlatina, interrompeu o diploma da escola particular.
O primeiro "diploma" mesmo, no sentido figurado, veio em forma de uma linda criança, de cabelos alourados, acompanhado de um anel de casamento. A barriga voltaria a esticar mais três vezes, em belos filhos.
Pelo retrovisor da janela, o vento sopra partículas salgadas, que trazem maresia, que corroem as dobradiças.
No filme instantâneo das esfumaçadas lembranças, vem o corroído casamento, as tempestades que foram contornadas, e a calmarias da maturidade. O porto seguro das palavras do pai, e do colo acolhedor da mãe.
Ali, diante da janela, na atual maturidade, ela não percebe, sua importância, o quanto se fez porto seguro para muitos, com seu otimismo, sempre com a mão estendida para ajudar, os filhos, irmãos, amigos.
A máquina de bordar, ao pé da janela, cruza novos pontos, linhas de diversas cores, moldam flores e escrevem novos nomes. São projetos para novos netos.
Lá distante, os barcos observam, o balançar do mar, num suave passar dos tempos em ventos, sempre a soprar.


Esta janela é o presente que Deus me reservou. Meu paraíso nesta terra. Amei o texto. Obrigada.
ResponderExcluirDeus não demora, Ele capricha... que privilégio poder desfrutar desse paraíso
ResponderExcluirMe vi lá , dentro de um desses barcos. Navegando devagar sacudindo entre ondas, olhando pela escotilha a janela do canto. A história da nossa querida irmã! Superação, uma força inquestionável, uma fé inabalável e a certeza de uma grande missão cumprida! Belo texto Henrique!
ResponderExcluirQue texto lindo. Como a pessoa que ela é. Faltou dizer a pessoa mais prestativa que conheci na minha vida. O amigo certo das horas incertas. Este presente que Deus te deu mais do que merecido.
ResponderExcluir