Gaveta entreaberta


No alto daquela montanha, o vento batia forte na antiga locomotiva, balançando-a e fazendo gemer seus vagões. Lá dentro, abriu-se uma fresta, de uma das das pequenas gavetas, do armário do passado...

...Outrora, me vejo em algum balneário próximo a uma floresta. Vejo o chão coberto de pedras ardósia,  esverdeadas pela umidade. Há folhas caídas com suas cores desbotadas. Vejo uma piscina natural, longa, com um gramado recém cortado, sei disso, pelo cheiro que sobe da grama que vai de encontro a subida da serra; há uma estátua em bronze, de um pequeno índio, empunhando seu arco e flecha, que compõe o cenário de silêncio e paz.

Mais abaixo, uma outra piscina, essa de azulejos verde-claro, água limpa, odor de cloro no ar. Ela se espalha em curvas alongadas. A borda, há pequenos ladrilhos, bege e marrom, três chuveiros que pingando sem parar, fazem um desarranjado concerto naquele ambiente deserto. Procuro em vão alguma pessoa; nada, ninguém. Talvez estivessem na gaveta ao lado, que não se abriu. 

Fecho os olhos, me concentro, imagino a gritaria das crianças, batendo na água para molhar os amigos, que já estavam molhados, vejo a corrida para fila do escorregador, azul escuro, ouço seus pais comentarem da nova era Vargas, da neutralidade na segunda guerra mundial, que dominava os jornais do momento, sinto a fumaça e o cheiro da carne assando na  churrasqueira. Deitadas ou sentadas sobe um sol castigante, suas esposas cochicham sobre os galãs das telenovelas, a revista Manchete, vai de mão em mão, seguida de suspiros profundos e risos, é a conspiração dominical e silenciosa contra os maridos machistas, que de longe pedem que vá buscar uma cerveja.

Desperto dessa sonora imaginação, o silêncio volta ao balneário, as árvores da floresta, agora balançam agitadas pelo vento que traz nuvens escuras e assobios nas frestas das janelas. Já não há mais sol, um princípio de noite se instalou, uma luz, amarelo caramelo, se acende atrás do chalé, a chuva cai...

...Alguém fechou a gaveta, o trem continua sua subida. O apito ecoa pelo vale, segue queimando seu carvão rumo a próxima estação.


Comentários

  1. Fiquei imaginando aonde esta locomotiva vai chegar. Me remeteu a uma lembrança boa que devo ter vivido em outra encarnação, adoro agua, verde, lugares alegres. Obrigado por me fazer sonhar nesta manhã ensolarada e gelada.

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  2. Bom diaaa! Eu lembrei daquele lugar que íamos lá no pé da Serra de Terê. Não lembro o nome!

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  3. Ah Bigas... com certeza são lembranças de vidas passadas, e que riqueza de detalhes. Quem sabe eu talvez não tenha sido uma dessas mulheres deitadas ao sol (adoroooo)... sei que amo ler seus contos e me imagino inserida neles. Show de texto

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  4. Parece o frame de um filme! Muito visual esse momento! Nova forma de narrativa! Muito bom, Henrique!

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