Padre Lino

"Escutai todos e compreendei: o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça". 


As palavras do sermão matinal, não eram novas, ele já havia repetido várias vezes, mas naquele dia, foi como se tivessem sido sopradas para aquele momento, para aquele padre, que se questionava, ser digno de vestir a batina e aconselhar seu rebanho.

No início da missão ele parecia um franciscano, o cabelo comprido, repartido ao meio, em ondas, barba volumosa, o olhar penetrante e voz mansa de um iluminado. Com seu violão as costas, canções de louvor eram entoadas em coro, senhoras encantadas, adolescentes apaixonadas, assim era a vida de padre Lino  no subúrbio de Paciência-RJ.

Mas a fama, a bajulação e erradas escolhas,  balançaram a sua fé, turvaram a visão e a impureza começou a reinar.

Uma paróquia, precisa, além das doações dos fiéis, de outras formas de arrecadar dinheiro, são quermesses, bingos, e principalmente a caridade dos comerciantes, ou no caso específico da Paróquia Santo Antônio em Paciência, dos "bicheiros e malandros", que  encontravam ali, o perdão divino pelas atrocidades que a organização exigia. Sendo "eles", senhores das verdades, respeitados e temidos pelo povo. Faziam o papel do Estado, eram pais e padrinhos de muitos, porém com um enorme débito diante do todo poderoso.

Padre Lino, batizava crianças, e com o tempo, começou a batizar comércios, e logo, pontos de jogo do bicho. 

Em tempo de eleições, os louvores maiores, incluíam prefeitos e vereadores do sistema, que já começava a engatinhar.

Promessas políticas, promessas de um Deus mais zeloso, andavam de mãos dadas.

Não demorou muito, a criar falsos rumores das andanças de padre Lino, e algumas barrigas apareceram e seu nome, foi dado a muitos bebês nos arredores do município.

E vieram cobranças; injustas, é claro. Como injusta era a língua ferina dos evangélicos que começavam a surgir com suas ideias de um novo mundo, melhor e mais justo, para quem pagasse o dízimo em dia.

E foi assim, no meio dessa briga que a matéria foi publicada no Jornal o Dia, "Padre Lino o Padre Cícero de Paciência". Logicamente a repercussão chegou aos ouvidos da arquidiocese que resolveu afastar o bom padre, para, digamos assim, um retiro espiritual em Brasília.

O retiro na verdade era um curso de relações humanas, para o novo milênio que se aproximava. 

No curso padre Lino foi hospedado por padre Caetano, capelão da igreja Rainha da Paz. Ele gostava de tomar um chopp de happy hour, e filosofar sobre a vida. E foram duas semanas debatendo as mudanças que o sopro do novo milênio trariam.

Na véspera do retorno de padre Lino, Caetano teve que viajar para Goiânia. 

O chopp de saideira no bar "Kupin" na 209 sul, tinha tudo para ser solitário, não fosse a troca de olhar insistente de uma jovem mulher, entediada com a mudança dos pais para o Sul. E o que seria saideira, virou plural, e cambaleantes, se misturaram e se abusaram e nem sequer se despediram. Na manhã seguinte, padre Lino, embarcou no vôo B-3019 da Varig, com destino ao aeroporto de Santos Dumont, sem nem imaginar que ali havia plantado uma semente de mostarda que germinaria e se tornaria uma árvore frondosa.

Em seu retorno, uma nova paróquia, e depois mais outra, e mais outra, até chegar ao que ele considerou, seu momento de aposentar. Acreditava ter dado sua contribuição a religião, ter interpretado no dia a dia, a paixão de Cristo, ter visto as chagas crescerem em seu corpo e na sua alma. Era hora de descansar. Se afastar do Rio, já tão badalado e agitado, era hora de botar o violão nas costas e seguir caminho.

Queria uma cidade pacata e distante dali. Então lembrou que na sua infância ele foi passar umas férias em Unaí, oeste de Minas Gerais, ali seu Tio fora gerente do Banco do Brasil e a paz reinava quando o gerador de energia era desligado e o céu virava um manto de estrelas, e o mato um mar de pirilampos, era para lá que ele iria.

Unaí havia se desenvolvido muito, continuava sendo cortada pelo Rio Preto, só que agora, ele tinha sido represado, criando um belo lago. E foi as margens desse lago que ele ergueu sua casa amarela, e foi também na festa da Moagem em Palmital que ele conheceu sua cabocla, com botas altas e fala mais alta ainda, que se encantou e tornou sua parceira. Ali ele reencontrou a sua fé, voltou a ser discípulo e pescador, pescava amigos com tanta facilidade que parecia ser amigos de uma vida inteira. 

Ao entardecer, sob um céu dourado, prestes a se tornar um  septuagenário, um peixe é fisgado, é hora de voltar para casa, o sereno caia mansamente, uma estrela cadente riscava o céu sem nem dar tempo de formular um desejo. 

Com o terço na mão, o peixe na outra, ele reconhece que já não há mais o que desejar, somente agradecer a paz, daquele momento. 



Comentários

  1. Amei... muito, muiiiiiiito bommmnn

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  2. Lino; padre, cantor, boêmio. Quem sabe um beato adorado. Lino pode ser a reencarnação de Antônio Conselheiro e, Palmital, a Nova Canudos. Parabéns! Um primoroso e efervescente texto narrativo.

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  3. Irmãos,
    Pater noster, qui es in cælis:
    sanctificetur nomen tuum;
    adveniat regnum tuum;
    fiat voluntas tua,
    sicut in cælo et in terra.
    Panem nostrum quotidianum da nobis hodie,
    et dimitte nobis debita nostra,
    sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
    et ne nos inducas in tentationem;
    sed libera nos a malo.
    Amen.
    Não sei porquê, Mas eu me identifiquei muito com este padre. Ainda bem que não comentaram sobre a ida do padre Lino para Juiz de Fora , onde ele celebrava a missa das 6h no convento de Santa Catarina. Nem das confissões na igreja da Glória, onde vez por outra
    substituia o padre Jayme

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  4. Mtoooooo bom!!! Adorei a msg do padre Lino nos comentários, inclusive! Rsrssssrssrssr

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