Caçarola de prata
Cedo aprendi que, dando brilho aos coturnos do meu pai, conseguiria minhas primeiras moedas, foi um aprendizado relevante para o futuro, dar o melhor de mim e receber uma recompensa.
Mas foi exatamente com a palha de aço, que aprendi que havia uma renumeração mais gloriosa do que a prata.
Numa dessas tantas manhas da infância, no intuito de ajudar minha mãe, peguei a velha caçarola para lavar. Sendo orientado sobre o uso do que hoje chamamos de Bombril, me dediquei em esfregar o fundo negro da velha panela. Mesmo com mãos pequenas e pouca força, começaram a surgir os resultados. A empolgação, me levava a retornar e melhorar a cada enxaguada. Foi um processo extenuante, de muitos minutos. Até que me dei por satisfeito, ao fim estava esgotado fisicamente.
Ao entregar a caçarola para minha mãe, recebi a maior de todas as recompensas, o sorriso, o beijo e o reconhecimento pelo trabalho.
Com o tempo, nos agarramos a ideia de que nunca faltarão coturnos, que as pratas virão com a mesma facilidade do brilho que a flanela esfregada dá aos coturnos.
Quando adolescente, nem botas, nem panelas, nem pratas nem sorrisos de reconhecimentos, pouco importa; eu faço meu ego, eu tenho o mundo.
Mas o amadurecimento com seus implacáveis ponteiros, em seus contínuos círculos, mostram novas realidades, te cobram brilho em tudo, e um pouco do sorriso desaparece, e a luta pela sobrevivência te engole sonhos e desejos.
E surge um novo ego, que é aquele que te avalia; e ecoa: "eu fiz o melhor, esse é o meu melhor!", que venham os reconhecimentos; mas muitos não reconhece, pelo contrário, procuram minúsculas falhas para apontar e criticar.
Há os que nem falam, te ignoram, ficam mudos, não te veem.
Hoje, gostaria de ver o sorriso embaçado e agradecido da minha mãe, no opaco fundo da velha caçarola, como ela brincou, falando sobre ter ficado um espelho.
Gostaria de me alegrar com as pequenas moedas, verdadeiras fortunas, que brilhavam os olhos daquele magro menino e seus sonhos.
Tudo era tão simples!
"...iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas..."
Quando se vê passaram 50 anos!
Mario Quintana

Nem fala meu padrinho... o tempo tá voando, os sorrisos de quem amamos se apagando aos poucos... mas o nosso ainda resta, né?! Sigamos tentando ser melhor a cada dia!!!
ResponderExcluirObrigada por seus textos... TE AMO!!!
Ah Bigas... doces lembranças e a vontade de voltar ao passado... por uns minutos que sejam a vontade de mais uma vez ver aqueles passos trocados de papai, o sorriso de mamãe. Lembranças que o tempo não apaga
ResponderExcluirE não é? Quantos muitos obrigados não foram recebidos no decorrer de nossas vidas, mas isto nunca diminuirá a nossa responsabilidade.em manter o legado que recebemos de .nossos pais. Sermos sempre solícitos e responsáveis com as oportunidades que chegam a nós.
ResponderExcluirSempre com ótimas imagens, Henrique! Uma passeio pelas fases e um reconhecimento também. Sabe que estou com esse refrão: Fiz o meu melhor! Esta palavras planta paz!
ResponderExcluirSó pai e mãe são capazes de reconhecer o brilho dos filhos! Na vida real e dura lá fora, temos que fazer bem feito e não esperar elogios de ninguém! Se houver algum , será lucro!
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