O escuro trauma das estrelas apagadas


 O escuro trauma das estrelas apagadas

Não é lá um bom título esse, mas serve bem para começar essa história, veja bem, história com "h", ou seja, não se trata de uma narrativa imaginária, é fato.

No ano de 1980, Cacá Diegues havia lançado o filme "Bye Bye Brasil", sucesso nacional com José Wilker, Bete Farias e o jovem Fabio Jr.; na trilha sonora do filme, havia uma referência a terra que nasci: "já tem fliperama em Natal". Dois anos depois, mudei para lá e constatei que sim, já havia realmente o fliperama em Natal. Mas foi no ano seguinte, quando fui passar um carnaval no interior,  na cidade da minha família paterna, a pequena Caraúbas", que pude perceber essa distância cultural de que o filme tratava.

A cidade na época tinha como atrativo principal, a estância de Olho D'água do Milho, um modesto balneário distante uns 25 km da cidade. E qualquer fonte de água, naquele calor abrasador do sertão do Seridó, sempre era bem vindo.

Levantar cedo para buscar leite, no velho jeep Willys, com meu tio, também era uma grande aventura. Lá também havia o banho de açude, onde quase me afoguei ao atravessar, pós ressaca de carnaval.

Durante o dia, era bater perna pelas ruas. Como dizia meu tio, o povo falava, lá vem o sobrinho de Plínio, aquele que usa a camiseta no ombro.

Mas foi numa quadra de futebol de salão, que acredito ter eternizado meu nome. É que já corria a notícia, de que eu e minhas duas irmãs mais novas, éramos de Brasília, e que morávamos em Natal, e que eu, jogava no Riachuelo, time de futebol da capital potiguar. Bastou isso, para um pequeno público de crianças e adolescentes, lotassem a velha quadra de futebol de salão da cidade. E lá fui eu para quadra, logicamente, incorporado pelos espíritos dos nem nascidos, John Áreas, Ganso e Cano. Foi um show.

A noite, numa época que, nem em ficção científica, se imaginava um "hi-fi", onde o sentido de rede social, talvez fosse algum local coletivo de dormir, um redário. 

Havia algo melhor do que isso,  a pracinha da cidade, lá era point de encontro de todos; lá os jovens desfilavam, com seus cabelos abrilhantados, as meninas engomadas e perfumadas, rodeavam, como em um baile de salão, sempre passando, um pouco mais devagar frente a casa de esquina da minha tia, onde ficávamos sentados, eu e minhas irmãs, revessando entre as cadeiras de balanço, ou a mureta da casa. 

Nos alto-falantes da praça, a "Rádio Centenária", aquela que transmitia para o mundo todo, inclusive Mossoró, como diziam, tocavam marchinhas de carnaval e recados da cidade.

A noite, as ruas iluminadas por postes distanciados, serviam de ponto de encontro para a "sapolândia", haviam sapos de todos os tamanhos, cantores, felizes e  saltitantes, era uma atração a mais na cidade. 

Tudo era festa, meus tios e primos, fizeram de tudo para ser inesquecível. 

E foi... não fosse... 

A noite o gerador de energia era desligado e ficávamos a luz de velas. O tic-tac do velho relógio cuco, de gerações passadas, despertaram medos adormecidos; me vi na mesma escuridão da infância em Unaí, onde não era permitido sequer a visão de uma fresta do céu, um piscar de uma estrela, era como se tivesse ficado cego. Até o vento, um ilustre esquecido, naquelas bandas, resolveu assoviar nas janelas do casarão, e isso me assustou. O grande quarto e o silêncio, acompanhado do incansável tic-tac, sombras de escuridão, se é possível vê-las, talvez, já o imaginário pânico, me trouxeram, espíritos observadores, todos a tagarelar na minha cabeça, divertindo-se do trêmulo galã e atleta de poucas horas atrás. Somente o tic-tac, insistente, a martelar os intermináveis minutos.

Os medos ficaram para trás, hoje o blackout da cortina ainda não é suficiente, procuro a escuridão do rancho, ando nas madrugadas, olhando o céu de estrelas. Se há espíritos, já não acredito que sejam do mal. 

Lembrando assim, tudo parece ter sido uma "estória" inventada, e que bela "estória" foi essa história.

Comentários

  1. Estória ou história, ficou ótima!!! Rsrssrs... saudades de ver as estrelas com essa escuridão de verdade! ❤️

    ResponderExcluir
  2. Caraca, Caraúbas eu morei 1 ano, lembro da briga das cunhadas Guida e Maria, dos banhos nas bicas qdo chovia, da filha do prefeito que desfilava na escola, dos sapos gigantes, da Rural de tio Juarez, da copa do mundo q ganhamos, e da cx d'água que eu subia escondida para comer doce de goiabada.. tenho uma cicatriz no joelho da lata que abri com faca pq não tinga abridor.. estranho, nem vontade de ir lá tenho, imagino como deva ser morar lá.. super bem contado como sempre Henrique. Parabéns.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas