Há um tempo atrás
Na primeira vez que resolveram se reunir, os sete irmãos escolheram a cidade natal, onde ainda moravam a caçula Tête, a já aposentada Haide, a que não sentia frio, e o fazendeiro e ex prefeito Plinio.
A conta de irmãos, era para ser oito, mas um já havia subido e participava como observador, e mesmo não sendo visto, ao ser relembrado pelos demais, um vento pouco, tipo uma brisa, chegava mansa de alguma esquina da pequena Caraúbas.
A programação do dia, começaria com um farto café da manhã na casa de Tetê, com cuscuz, queijo do sertão, carne de sol, mandioca, ovo frito e logicamente, muito café. Dali partiram para assistir a missa dominical na Paróquia de São Sebastião. Os devotos cristãos, relembrariam as festas ao padroeiro, os casamentos e batizados, os tantos padres e beatas que buscavam em suas melhores intenções serem ouvidas pelo todo poderoso.
O próximo passo era visitar a escola Hugolino D'Oliveira, homenagem ao nobre pai, cidadão de destaque por sua postura política e empreendedora na cidade. Ali a filha mais nova, e atual diretora, se emocionaria ao posar para a foto junto com os irmãos, no parquinho do colégio ao lado da sua casa de grossas paredes.
Plínio insistiu no convite, e todos foram almoçar em sua casa, e sentaram-se ao redor da enorme mesa na sala de jantar e assistiram um desfile de panelas fumaçantes saindo do fogão de lenha e sobremesas de doces da fazenda, dignos de um rei. O silêncio reinava, somente os barulhos dos talheres e do falar repetitivo do velho papagaio no poleiro na cozinha.
Após a "palitação" dos dentes, a rede seria o melhor refúgio para se esconder do sol abrasador daquela tarde.
Alguns foram para suas casas, pois, mesmo tendo suas casas na capital, ainda mantinham suas paredes no passado.
Meu pai, aquele que se aventurou a ir mais distante, e por isso, esteve mais ausente, foi para a casa da irmã na pracinha, de lá ele acompanhava o movimento do final do dia; sentado na cadeira de balanço na varanda da casa, ouvia a "Rádio Centenária" sair dos alto falantes da praça, contemplava as andorinhas que sobrevoavam incertas acompanhando o bando, nem imaginava que mais tarde as andorinhas iriam se transformar em um lindo vale tão importante para ele; lembrava do doido que sabia o dia do nascimento de todos os moradores da cidade e também o santo do dia; lembrava de um senhor que falava trovejando do outro lado da praça: "- vou lhe contar um segredo, mas não conta para ninguém"; lembrou do dia, ainda criança, que ficou preso na caixa de rapadura, do dia que colocou fogo no mato atrás da escola, e também das vezes que os irmãos o escondiam do pai, depois dele tomar umas e trocar os olhos e as pernas; veio a sua cabeça o dia que pegou o ônibus rumo a capital.
Então viu passar um menino de bicicletas e ele pensou, será filho de quem? pois ali, já não conhecia mais quase ninguém, ali o tempo parou e mesmo a cidade tendo crescido, para ele era uma página virada de um livro de capa seca e empoeirada que ficou guardado na prateleira mais alta da estante de suas memórias.
Essa foi a primeira e última vez que os irmãos se reuniram. Após esse evento, retornaram as suas grandes famílias, filhos, netos, genros e noras, retornaram as suas rotinas do presente, e as preocupações do futuro.
E pouco a pouco foram saindo de cena, e os que ficavam eram avisados por telefonemas distantes, e de longe lembravam aquele dia, os risos, os sabores, as vozes.
Hoje só a caçula guarda esse dia, a sete chaves, dos sete irmãos.



Que máximo!!! Não conhecia essa foto e nem essas histórias! Dos irmãos do vovô acho que conheci só tia Hayde, que por mto tempo achei que era irmã da vovó Jenie! Rsrssrsrsrs...
ResponderExcluirAdorei meu padrinho! 🥰🥰🥰