BR e reformas
Ontem li uma mensagem que falava sobre as pequenas mortes da vida de adulto, são "lutos" que não recebemos flores nem condolências nem abraços demorados. Ainda assim, algo foi perdido, terminado, algo deixou de existir. É o luto das fases da vida que acabam.
Há vinte dias atrás, eu e minha irmã mais velha, pegamos a estrada rumo a Valença RJ, para juntos trabalharmos em mais um dos tantos fechamentos de ciclos.
O primeiro desafio, foi fazer a mudança usando um Fiat Mobi, distribuir roupas, sapatos, ferramentas, alguns mantimentos e a indispensável TV, para ela assistir a novela do "Candinho". De quebra, o tal do balde, que ela insistia em levar, desde o início do planejamento.
Nossa preocupação inicial era com as chuvas anunciadas para o trecho, e já nas primeiras curvas ela apareceu, fina, mas já preocupante.
Brasília não queria nos deixar ir, e já na primeira saída para o Bandeirante, tomei uma estrada que levava a uns condomínios, tivemos que colocar no Waze e redirecionar o caminho.
Já na BR, as cidades iam se sucedendo, e com ela os pedágios.
Pão de queijo com coca-cola, parada para esvaziar bexiga, conversas e mais conversas.
Paracatu, Três Marias, Belo Horizonte e sua demorada saída do anel viário, para finalmente chegar a Congonhas, já no finalzinho do dia, onde descansamos.
Sim... a chuva que rondou todo o percurso caiu com vontade ao entrarmos no hotel.
Pela manhã o jornal anunciava a tragédia em Juiz de Fora, onde iríamos passar por fora da cidade, na BR.
O último pedágio, foi o mais caro, e o mais curto, rodamos menos de 1 km, da saída da BR 040 até a RJ 151, rumo a Rio das Flores. Um espetáculo de estrada, sempre margeado pelo caldaloso Rio Preto.
Ao meu lado, Bel suspirava pelas lembranças de outras tantas travessias ao lado do seu coronel.
Chegamos a pequena e encantadora cidade de Rio das Flores às duas da tarde, lá fomos muito bem recebidos pelo casal Heitor e Jaque, que nos preparou um inesquecível bolo de banana com passas.
As estradas para a fazenda estavam intransitáveis, para o meu pequeno carro, mas por fim, numa sexta-feira resolvemos tentar.
Alex, que é o arrendador das terras, nos guiou pela estrada de Osório, juntou-se ao comboio, o técnico da internet para instalar a antena.
O carro sambou em alguns trechos, mas após subidas e descidas de uma estreita estrada de chão, chegamos a nosso destino.
Hoje, sexta-feira treze, fazem duas semanas aqui na Fazenda São José.
Duas semanas de contemplação para mim e desprendimento da parte da minha irmã. De separação, do que se guarda ou do que vai para a fogueira no final do dia, de remoção para ferro velho, de esvaziamento de espaço e restauração de paredes e da alma.
Eu como um bom observador e historiador, vou catalogando mentalmente a vivência da família no decorrer desse espaço de tempo, ali em agendas rabiscadas da adoçante, em fotos grudadas ao vidro, de mofados porta retratos, em jogos guardados na prateleira de cima do pesado guarda roupa, de livros e manuais, convite de formatura, diplomas em canudos e tantas coisas. A casinha do cachorro e suas fotos, brinquedos de quando Zeca era menino, a pasta 007 com etiqueta do então major aviador, o iluminado e moderno aparelho de som para época, que coloco para funcionar, CDs piratas que não tocam, CDs originais que tocam e mexem com a saudade da mana, que mais tarde, junto a uma taça de vinho, deixaria de lado um pouco a sua fortaleza e aceitaria o rolar de algumas saudáveis e necessárias lágrimas, ao som de Fafá de Belém.
Na varanda, o verde Jeep, ainda sonha com as estradas e seus buracos ou com os vasos de plantas na carroceria.
No sótão, a empoeirada raquete de tênis, máquina de revelar fotografia, máquina de abrir latas dos anos 60, malas comidas por roedores, mais livros, camas desmontadas, morcegos empoleirados de cabeça para baixo que nem vêem a bagunça, enfim mil coisas.
De tudo, o mais intrigante de todos, o relógio secular. A princípio minha irmã disse ir para o fogo, mas depois de remontado e limpado o vidro, e recolocado as engrenagens no local, ficou um espetáculo. Não funciona, mas ele observa novamente, agora, fora da caixa, em cima da antiga cristaleira, ele vê o vai e vem das pessoas, dos bois na estrada, dos pássaros nos beirais, do vento. Se nariz tivesse, e aí eu lhe ofereço um, ele se encantaria pelo cheiro das panelas e pela doce fumaça da fogueira, entregando ao tempo o que parado estava e subindo vai se fechando os ciclos, para que se abram novos espaços, e com ele novos tempos.
No silêncio profundo da fazenda, em caminhadas solitárias até a porteira, vou me levando, mais uma vez, como sempre digo: "onde eu vou eu me levo", mas sempre uma nova versão desse "eu" em eterna construção, cada vez mais leve.

Ah Bigas... como são necessários esses encerramentos de ciclos, esse "deixar ir o que já foi tão importante ", essa construção do seu "novo eu". E poder contemplar desse presente maravilhoso que Deus presenteia todos os dias, essa natureza linda e acolhedora. Obrigado por compartilhar conosco essas lembranças e nos permitir acompanhar mesmo de longe essa aventura de vocês. (Teresa)
ResponderExcluirEspetacular, belo texto. E diga para o relógio que duas vezes no dia ele informa a hora certa. Nesses momentos o "cuco imaginário" se solta e mostra ao mundo que há tempo para tudo e todos.
ResponderExcluirQueria ser uma mosquinha pra acompanhar toda essa "restauração"! Ouvir as conversas e músicas, o barulho das árvores e dos pássaros e passear tão intensamente no passado! De tempos que não voltam mais, pessoas que não estão mais conosco, mas que tem um papel essencial nas nossas vidas!
ResponderExcluirObrigada por dividir tanto conosco meu padrinho! E obrigada por fazer tudo isso com e pela minha mãe! AMO VCS!
Já li e reli este texto muitas vezes, ele relata nossa aventura que desde outubro/05 estamos planejando com muito entusiasmo.
ResponderExcluirVocê é um excelente companheiro de viagem e está trabalhando como nunca nesta batalha que nos propusemos a fazer. Eu hora com lágrimas, horas com brincadeiras estou tirando forças que não sabia que tinha e tentando fazer desta casa um lar. Está sendo uma experiência e tanto. Um novo ciclo e um ciclo que se fecha. Terminando uma obra que o Zeca planejou e executou com tanto carinho mas que o destino não deixou que ele desfrutase. Pela primeira vez passando mais que um feriado ou um fim de semana. Não dá mais para fazer um bate e volta e viver aqui está sendo uma experiência maravilhosa. Obrigado por tudo Bigas e vamos aproveitando.