A casa
Se fosse uma paciente, nem precisaria ser médico, para diagnosticar como sendo, paciente terminal. Pela aparência externa, via-se manchas escuras, subindo pelas artérias. Calçadas lodosas com buracos não planejados.
A fechadura emperrada, deu trabalho para girar, parecia dizer: - vão embora, não quero receber ninguém. No interior, o reboco das paredes coloria-se de um alaranjado e esfarelado tijolo maciço, sujando o chão a cada passada da vassoura. As janelas emperradas, de um sono profundo, como se a artrose tivesse se apossado de seus movimentos, relutava na sua simples função, de abrir e fechar e renovar o ambiente. A mobília sofria com o mofo, e era devorada pelos cupins, e o que havia dentro, pelas traças, quase que invisíveis.
O sótão, como sendo a cabeça da casa, estava sobrecarregado de memórias de muitas vidas, de muitos assaltos, de muitos janeiros levados.
Notava-se o respirar agonizante de alguém abandonado.
Então começou o longo tratamento, e já nas primeiras semanas saiu da UTI para a enfermaria, e foi tomando soro e começou a ganhar côr, e na fisioterapia com grafite, fechaduras, janelas e portas melhoraram sua mobilidade.
O aquecer das fogueiras no final da tarde, alimentadas por restos de papéis, aliviaram a pressão na cabeça do sótão. Uma nova porta fechou a passagem dos mamíferos voadores.
A grama ao redor, a única que estava apresentável desde o início, ganhou a companhia de novas flores em pequenos vasos.
O jipe teve que ser arrastado, contra sua vontade, uns dez metros, e liberou a varanda, que ganhou um tanque, uma máquina de lavar roupas e o quadro do jato na parede, só que na horizontal, dando um toque diferenciado ao espaço.
O breu da noite, ganhou luzes nos quatro pontos da casa, e ficou belo, mas, mesmo assim, em dias de lua, por poucas horas, dá espaço ao brilho divino e ao mar de estrelas no céu.
Assim se passaram esses 43 dias, da internação a alta saudável, dessas quatro paredes, desse sonhado pedaço de terra, da minha irmã e do seu aviador coronel, que em sintonia observam o verde da floresta e o perfume dos eucaliptos.
Juntos pelo espírito, em orações, tudo continua a fluir.

Que lindooooo meu padrinho!! Pra variar passou um filme na cabeça... eu acompanhei a construção desse sítio, das confusões a soluções... curti algumas vezes com a família e os amigos... vivi o desespero de ver meu "véinho" no chão todo mijado sem conseguir se levantar... e sempre fica a lembrança dos últimos passos dele antes daquela manhã fatídica! É um lugar mto especial, com realmente milhões e milhões de memórias... de tantos sonhos que foram sonhados para esse lugar e que por esses 43 dias estão sendo enfim realizados... infelizmente o idealizador do projeto não está mais entre a gente, mas tenho certeza de que onde ele estiver está muito feliz por enfim, ver tudo pronto!!!! Obrigada por dividir até aqui, obrigada por acompanhar minha mãe nessa empreitada, obrigada por nos trazer fotos, curiosidades e histórias que viveram por ai... que enfim viva esse lugar mágico!!!
ResponderExcluirNossa! Que texto maravilhoso! Que processo espetacular! A casa renovada, a dona dela tb! E com um auxílio luxuoso do irmão que acompanhou cada etapa e atuou de forma exemplar! Muito muito muito legal! Um abração, Nano
ResponderExcluirSensacional, descrição impecável de cada momento vivido! Além de fotógrafo um poeta maravilhoso!
ResponderExcluirQue crônica bela. Existem curas, reformas e recuperações que ultrapassam o sentido literal do fazer e realizar. Aprofunda-se na análise e alcança o sentimento, a alma e, em especial, o sentido do território, lar e o amor. A luta e a resiliência de Bel e o coração e essa alma gigante do mano Bigas. DEUS há de estender esse tratamento fisico, espiritual e atemporal da Fazenda São Jose. Estarei presente nas próximas fases.
ResponderExcluirQue crônica bela. Existem curas, reformas e recuperações que ultrapassam o sentido literal do fazer e realizar. Aprofunda-se na análise e alcança o sentimento, a alma e, em especial, o sentido do território, lar e o amor. A luta e a resiliência de Bel e o coração e essa alma gigante do mano Bigas. DEUS há de estender esse tratamento fisico, espiritual e atemporal da Fazenda São Jose. Estarei presente nas próximas fases.
ResponderExcluirArrasou mais uma vez! Parabéns!
ResponderExcluirVivemos estes 43 dias num ritmo frenético, cheio de surpresas, mas conseguimos um belo resultado. Nada disto seria possível sem o seu companheirismo, apoio, consolo em algumas muitas horas, palavras motivadoras e muita, muita força, com direito a cobras, lobo guara e muito bom humor, piadas que fizeram o trabalho menos arduo, Giovane e Sr Ari que o digam.
ResponderExcluirSaindo da uti para a realização do sonho do Zeca. Ele merecia isto.
Muito, mas muito obrigado por tudo.
Isabel
Que relato! Que história....que histórias....pois foram muitas. Tristes, felizes, angustiantes e agora o fim desse ciclo de sentimentos acumulados e não terminados. Mas não que seja o fim, pois muito ao contrário é o início de uma nova e novas histórias.
ResponderExcluirAh Bigas... a gente se teletransporta com o seu relato. Imagino que você e Bel estão muito felizes por cumprirem essa missão pioneira! Que venham as próximas, com fé em Deus estarei presente também (Teresa)
ResponderExcluirSENSACIONAL, que relato sensacional, insisto em dizer, Henrique escreva seu livro de aventuras o mundo precisa ler isto para se tornar melhor..... vc tem este dom, através das letras nós "assistimos" as ações que aconteceram ai no sitio, foi mais que uma reforma, foi a transformação de um passado que não existe mais, porém não esta esquecido das pessoas que o vivenciaram.. o fogo queimou provavelmente o que pesava, o que devia doer mais, e acredito curar um sentimento de abandono, que devido a necessidade imediata que existiu naquela época de sair sem olhar para trás, hoje é sanado pela reforma. Eu sonhava muito em fazer isto com a chácara, mas infelizmente minha vida não me permitia na época, Deus é testemunha... Fica para a próxima encarnação. Miriam
ResponderExcluirHenrique, que chuva de analogias certeiras!! Parece também com abrir um baú cheio de tesouros pessoais. Chega a dar vontade de estar aí descobrindo também e salvando a casa desta UTI. Adorei!
ResponderExcluir